Estudos Esotéricos sobre o Tarot – O Mago

ESTUDOS ESOTÉRICOS SOBRE O TARÔ
(segundo a escola francesa) – por Abraxas

MANUSCRITO Nº 1
ARCANO I – O MAGO

Não raro, deparamo-nos com uma palavra ou com um nome inúmeras e inúmeras vezes, sem, contudo, pararmos para refletir mais demoradamente sobre a sua real acepção. No que respeita ao Tarô, é de conhecimento elementar, mesmo ao leigo, que se está diante de um conjunto de cartas a que se costuma denominar Arcanos (Maiores e Menores). Mas o que vem a ser um Arcano?

Não se pode defini-lo, muito pobre e superficialmente, como sinônimo de segredo, eis que segredo ou secreto é tudo aquilo que não se traz a público. O Arcano vai muito além do mero segredo, sendo, como observa com máxima propriedade Valentin Tomberg, aquilo que se deve saber para que haja fecundidade em um dado domínio da vida espiritual. É, pois, um pressuposto necessário às quatro outras ações exigidas do ocultista: querer, ousar e calar. É um fermento ou uma enzima cuja presença estimula a vida espiritual e anímica do homem.

Há símbolos que são portadores desse fermento ou dessa enzima, traduzindo-se, assim, em arcanos capazes de servir de veículo a esse fermento ou a essa enzima, se o recipiendário for capaz de recebê-los, sendo indispensável, para tanto, o terreno fértil que se reflete numa postura de humildade, tanto intelectual quanto espiritual.

Observemos, desse modo, que os símbolos precedem as próprias ciências ocultas. As ciências ocultas desenvolvem-se a partir dos símbolos, sendo, pois, um grave, mas muito comum equívoco pretender-se que os símbolos foram criados para velá-las.

Não se deve, também, confundir Arcano com Mistério. O Mistério pode abarcar – e não raro abarca – mais de um Arcano, porque é muito mais do que um mero fermento ou enzima espiritual, refletindo, antes, um evento espiritual de máxima magnitude, como a morte e o nascimento físicos, ou, em casos raros e em nada assemelháveis aos rituais simbólicos das lojas esotéricas, as iniciações raras pelas quais se pode passar ao longo da senda espiritual.

Ainda assim, mesmo que não constituam em si próprios um mistério iniciático, pode-se afirmar com segurança que os Arcanos Maiores do Tarô são uma escola completa e inestimável de meditação, de estudos e de esforços espirituais. São, enfim, uma introdução magistral à Arte de Aprender (ou, numa acepção mais erudita, à epistemologia esotérica).

O Arcano I do Tarô, princípio subjacente a todos os demais, reflete com justeza e precisão a sua posição de primeiro dentre os demais XXI: é ele o “Fiat”, o Primum Mobile (o primeiro movimento), o impulso primordial do qual tudo o mais se originou e antes do qual nada ainda havia, inexistentes que eram o tempo e o espaço.

Trata-se daquela abstração metafísica mencionada no livro do Gênesis, muito poeticamente, como o Espírito de Deus que pairava sobre as Águas (o Arcano II, como será visto). Trata-se do Espírito Universal, do Atman do hinduísmo, de Kether da Árvore da Vida da Cabala, do aspecto criador, enfim, d’Aquele que em nosso limitado vocabulário convencionamos chamar de Deus.

Aplicando-se os binários que, como ensina o Mestre G.O.M. (Gregory Ottonovich Mebes), fazem-se presentes em todas as searas do conhecimento humano, o Mago simboliza a Essência, em oposição à Substância; o Espírito, em oposição à Matéria; a Vida, em oposição à Morte.

É o Arcano da Unicidade e, ainda, o Arcano da Individualidade, pois que a vida universal sempre busca se individualizar rumo à máxima exploração das suas potencialidades, as quais não deixam de ser, contudo, reflexos transitórios do Um, descrito no Oriente como o “Uno sem Segundo”, o ponto no círculo.

O Mestre G.O.M descreve-nos o Mago em três planos, quais sejam, Arquetípico, Humano e Natural. Assim é que, enquanto Arquétipo, ele é a Divina Essência; no plano da Humanidade, ele é o próprio Homem ou Vir e no plano da Natureza é Natura Naturans.

No que toca ao plano arquetípico, além de tudo aquilo que aqui já se esboçou, convém lembrar que a Divina Essência é representada na simbologia tradicional como o braço vertical da cruz de braços iguais. Como o Arcano da Fecundidade, prática e teórica, seu simbolismo fálico é explícito, denotando o aspecto criativo da Divindade: +

Já o Homem, o Adão Kadmon da Cabala, é um protótipo materializado desse poder criador. Noutras palavras, “feito à imagem e semelhança de Deus”, o ser humano detém, ocultas em si, as potencialidades que poderão levá-lo ao domínio desse mesmo poder criador, com resultados e consequências dificilmente imagináveis senão nos mais elevados degraus da Iniciação.

Por fim, a Natura Naturans de Spinoza, a natureza criadora que se opõe à Natura Naturata, é a natureza que se autocria, a substância e a causa do universo material. Nas palavras do filósofo, aquilo que é em si e que se concebe por si, ou seja, aqueles atributos da substância que expressam uma essência eterna e infinita, isto é, Deus.

Dito isso, tomando-se por base as descrições mais modernas da carta d’O Mago, não se pode perder de vista que o primeiro tarô digno desse nome, o Tarô de Marselha, trazia para o Arcano I o título Le Bateleur, que pode ser traduzido como O Pelotiqueiro, O Prestidigitador, O Malabarista, O Saltimbanco.

O aspecto mercurial (do ponto de vista mitológico e astrológico) da carta faz-se ainda mais presente na atribuição tradicional de Marselha, vez que Mercúrio era o deus padroeiro dos magos, mas também dos comerciantes e dos embusteiros.

Aqui um mistério profundo se oculta. As associações tradicionais a Deus como o alegre partícipe de um grande jogo cósmico, que sem esforço criou e mantém o universo num estado de perpétua alegria e êxtase são muitas. Exemplos delas podem ser encontradas no Ocidente, na passagem dos Evangelhos em que Jesus diz que ninguém entrará no Reino dos Céus sem que se faça como uma criancinha, bem como no Oriente, onde Krishna, um dos aspectos do Deus Vishnu, mantém o grande jogo universal através da sua incessante brincadeira, a brincadeira divina ou Maha Lilah.

Outro princípio relevantíssimo simbolizado pelo “Arcano dos Arcanos” é aquele considerado como o mais importante em matéria de esoterismo, qual seja, a via da experiência da realidade do espírito, que pode mais claramente ser expressa nos seguintes conselhos ao estudante do oculto:“Aprendei a meditação sem esforço; transformai o trabalho em brincadeira; fazei com que todo jugo seja doce e todo fardo leve.”

Assim como o Arcano I é a chave para todos os outros Arcanos Maiores, a concentração, faculdade de fixar a máxima atenção a um mínimo espaço (segundo a definição de Goethe) é a chave prática do sucesso em qualquer domínio (e tanto mais no domínio das ciências ocultas, vez que concentrar-se é a arte de calar, que precede o saber, o querer e o ousar). Aqui, contudo, a chave da chave é a concentração desinteressada ou a concentração sem esforço, que pode ser exemplificada pela atenção do equilibrista que caminha sobre a corda bamba ou da criança absorta em seus folguedos.

Esse Arcano, assim, expressa a ideia fundamental de que é preciso ser um em si mesmo (a concentração sem esforço) e unido ao mundo espiritual (ir à zona de silêncio da alma) para que uma experiência espiritual reveladora e realizadora se produza.Todas as outras regras práticas ensinadas pelos outros Arcanos nada mais são do que aspectos e modalidades dessa mesma regra básica; qualquer fórmula de esoterismo autêntico – Mística, Gnose, Magia – não prescinde d’O Mago, isto é, da concentração sem esforço, da operação sem apego, da agitação com calma perfeita.

A lemniscata formada pelo chapéu do Mago, além de simbolizar o infinito, é símbolo do ritmo eterno ou da eternidade do ritmo, melhor dizendo, da transposição do estado de concentração interessada para o da concentração sem esforço, do centro diretor cerebral para o sistema rítmico.

De tudo isso se depreende o porquê do grande erudito em Tarô Paul Foster Case aconselhar a meditação no Arcano I a todo aquele que quisesse desenvolver a Arte da Concentração.

Até aqui, note-se bem, tratou-se do aspecto mental da prática.Entretanto, dela também se infere a unidade fundamental dos mundos natural, humano e divino. A Verdade, assim, sempre será a redução da pluralidade fenomênica à unidade essencial:dos fatos às leis, das leis aos princípios, dos princípios à Essência ou ao Ser.

Disso resulta, por decorrência lógica, o parentesco de todas as coisas, expresso em Ocultismo pelo Método ou Lei da Analogia, que vem a ser o método primeiro e principal da Ciência Hermética, tirado do Dogma da Unidade Universal. A Lei da Analogia expressa que os fenômenos mostram-se unos, não sendo nem idênticos, nem heterógenos, mas análogos. Por isso, o simbolismo é a ciência das ciências, a língua universal e divina, proclamando a hierarquia das ideias do mundo arquetípico sobre as formas do mundo material, bem como as relações que as unem.

Neste ponto, é necessária uma pausa para que se frise nunca ser demais a atenção à Lei da Analogia, princípio régio e basilar do hermetismo e, conseguintemente, de todas as ditas ciências herméticas. Modernamente, o desconhecimento desse princípio vem levando a que muitos autores, desligados da cultura clássica e, por que não dizer, da Tradição, busquem na física quântica, na psicologia e em conceitos místicos superficiais e genéricos as explicações para fenômenos e questões que o próprio Hermetismo, desde sempre, soube explicar e responder. Naturalmente, todo avanço científico pode e deve ser usado para demonstrar a veracidade da Lei da Analogia, mas nunca para explica-la, porque esse método basilar do hermetismo traduz-se num princípio universal e atemporal, enquanto a ciência, inexoravelmente, sempre será um fenômeno temporal e não raro local.

Unindo-se tudo aquilo a respeito de que se discorreu neste ensaio, pode-se tentar obter uma síntese: a visão da unidade dos seres e das coisas (isto é, a experiência mística ou experiência numinosa descrita pelos teólogos) pela percepção imediata de suas correspondências através da consciência concentrada sem esforço. O Arcano I, assim, também se traduziria no arcano do princípio da genialidade intelectual proporcionada pela concentração sem esforço.

Por fim, é também importante assinar que O Mago é o homem que atingiu a harmonia e o equilíbrio entre a espontaneidade do Inconsciente (Jung) e a ação voluntária do Consciente (Eu). É o verdadeiro Adepto que alcançou a Individuação ou a Síntese de Si. Explicando de outro modo, tudo se processa como se a atenção sem esforço permitisse um fluir perfeitamente harmônico entre a consciência e o inconsciente, de maneira que a partir dessa fluência, símbolos possam emergir espontaneamente… Símbolos a partir dos quais a própria Tradição Hermética emerge.