O Espírito Martinista

Texto de Jean Bricaud em Notice historique sur le Martinisme, publicado em 1934

Saint-Martin foi Franco-Maçom, foi Elu-Cohen e aderiu ao Mesmerismo; prestou-se, de boa mente, aos ritos e aos usos destas sociedades; conduziu-se como membro irrepreensível de fraternidades iniciáticas. Mas este comportamento representa uma época de sua vida. Vimos como o temperamento de Saint-Martin e toda a sua formação o afastavam do caminho exterior. Podemos entender, tanto as operações teúrgicas ou mágicas visando resultados sensíveis, como as associações maçônicas ou ocultistas, nos seios das quais elas são praticadas. Quando Saint-Martin solicitou a sua exclusão dos registros da Franco-Maçonaria, onde, somente figurava nominalmente, exprimiu seu desejo e sua convicção de conservar seus graus Cohen. Mas a ideia que até então fazia dos Elus-Cohen, parece bem próxima de sua concepção pessoal da Ordem iniciática. O verdadeiro elo entre os irmãos, é um elo moral e espiritual.

Também vimos Saint-Martin repudiar a sociedade, desculpar-se de haver fundado uma: “Minha seita é a Providência; meus prosélitos, sou eu, meu oculto é a Justiça”.

Mas, o Teósofo, sabia também que os seus profundos conhecimentos lhe impunham uma missão. Sabia auxiliar os homens que o cercavam, proporcionar-lhes conselhos, tentar insuflar-lhes o Espírito. Por possuir o “alimento espiritual”, os “aspirantes” se lhe aproximavam.

Assim o círculo íntimo de Saint-Martin se constituiu de discípulos escolhidos e de amigos fiéis. Somente o valor intelectual e o zelo pela busca da Verdade, permitiam ingressar nessa sociedade.

(…) A personalidade do Filósofo Desconhecido, tal como se manifesta nas suas obras e em seus atos, impede atribuir à sua sociedade um aspecto rígido, solidamente organizado e hierarquizado. Ninguém crê mais na autenticidade do rito maçônico, dito de Saint-Martin. E a única ação importante do Teósofo, no seio da Maçonaria, foi tentar quebrar a armadura das Lojas regulares, dispersar seus membros e arrastá-los, na sua corrida para o Absoluto, para fora, dos quadros e dos agrupamentos.

Admitamos, pois, que os discípulos de Saint-Martin, formavam antes uma espécie de “clube”, do que uma verdadeira sociedade iniciática. Admitamos que o elo que ligava esses discípulos ao Mestre e entre si, eram de natureza espiritual. Resta saber o que se fazia nessa escola e como se trabalhava nela; o que transmitia o Mestre e como se era admitido na cadeia. Estas duas últimas frases nos parecem resumir a finalidade e o princípio da sociedade de Saint-Martin, nela instruía, mas também conferia uma iniciação, no sentido exato do termo.

Sobre a maneira de Saint-Martin instruir, possuímos um testemunho de primeira mão, são as explicações dadas por Saint-Martin a um discípulo que o interpela. São as inestimáveis cartas a Kirchberger, barão de Liebisdorf. A primeira carta de Kirchberger, solicitava alguns esclarecimentos sobre o autor e o fundamento “Dos Erros e da Verdade”. O Filósofo de Amboise lhe respondeu cortesmente, e assim nasceu uma troca de ideias que durou quatro anos. Encontramos ao longo das páginas, um apreciável número de concessões doutrinárias. A que descobertas convida a belíssima parábola do jardineiro! E quais revelações, Saint-Martin não hesita comunicar! O Filósofo Desconhecido, na sua primeira obra, esboçara alegoricamente o estado do homem antes da queda. O homem original, nela se lia, tirava todo o seu poder da posse de uma lança maravilhosa, composta de quatro metais diferentes. Saint-Martin não oculta até que ponto é importante descobrir a verdadeira natureza dessa lança simbólica. E responde, assim, a Kirchberger, que lhe reclama o segredo: “A lança composta de quatro metais não é outra coisa do que o grande nome de Deus, composto de quatro letras”. Pode-se exigir algo mais claro? Compreendemos a fecundidade das relações do Mestre e dos discípulos, quando uma tal vontade de ensinar, anima aquele que sabe. A sequência da revelação feita a Kirchberger sobre a significação metafísica da lança, mostrará ainda, Saint-Martin orientando aqueles que o solicitam. Liebisdorf, com efeito, tirou desse símbolo, conclusões demasiado arbitrárias. Comparou, por exemplo, a liga dos quatro metais com os quatro evangelistas. Saint-Martin taxou tais conclusões de “convencionais” e, escreveu a Kirchberger “que os quatro evangelistas são, talvez, cinquenta”.

Assim se exerce o primeiro ministério do Filósofo Desconhecido entre os membros de sua Ordem; repara e enriquece sua inteligência. Ele lhes expõe sua verdadeira doutrina. Acrescentemos, também, a essas demonstrações, as técnicas místicas, as chaves cabalísticas de meditação, de respirações que Saint-Martin ensinava a seu grupo. O barão de Turkhein, acreditava que várias passagens dos “Erros e da Verdade”, “eram tiradas literalmente das Parthes, obra clássica dos Cabalistas. Não existe uma parte da Cabala que pode ser intitulada “a yoga do Ocidente”? Tais eram alguns ensinamentos transmitidos por Saint-Martin aos membros de sua Sociedade. O que dissemos da concepção Martinista da “Ordem iniciática”, deixa bem entendido a possibilidade de ser Martinista, sem estar materialmente, socialmente, ligado a Saint-Martin. Certamente é fácil se mostrar Martinista, como esses homens superficiais que Mercier descreve no seu “Tableau de Paris” e que fazem do Filósofo Desconhecido, uma moda. Não há nenhuma necessidade de ligar-se à “Ordem Martinista”. Pode-se ter aderido à doutrina instaurada pelo Teósofo de Amboise, colocá-la em prática, esforçar-se em seguir o caminho que ele indica, sem ter recebido a iniciação por meio de outro iniciado. Ou por outra, extrapolemos a noção da Ordem Martinista. A religião cristã julga salvos todos que se incorporam a ela pelo “batismo do desejo”. Será preciso ver o Martinismo recusar a iniciação do Homem-Espírito a todo “Homem de Desejo”? Reconheçamos, todavia, que a iniciação ritual é o meio mais comum e o mais fácil de ingressar na “Ordem Martinista”. Ela proporciona a todo aquele que a recebe, uma poderosa ajuda. Um auxílio místico, em primeiro lugar, dos Irmãos passados ou presentes na comunhão dos quais, nos permite entrar, mais facilmente. Ajuda moral e também material dos membros contemporâneos. Auxílio intelectual pelo socorro que solicita no estudo da doutrina, seja por trabalhos em comum, seja pela voz dos adeptos mais adiantados, seja, principalmente, pelas tradições dos quais esses adeptos são o reflexo e que dormem no seio da Ordem, não esperando senão um Príncipe, cujo amor virá despertá-los. Mas, a iniciação possui em si mesma um valor exato. Saint-Martin instruía os membros de sua sociedade, dessa sociedade que a história confirmou-nos a sobrevivência através dos séculos. Mas, o Filósofo Desconhecido lhes dava também, um misterioso viático, uma chave mais estranha do que as clavículas: a iniciação. Extraordinário encanto do influxo Divino que emana de suas mãos, que faz o sacerdote ou o adepto, que dá o poder ou a facilidade das ciências. Virtude mágica ao limite extremo do natural e do sobrenatural. Prodigioso e impalpável auxiliar que se dá sem dividir-se, que se transmite de homem a homem; guarda seu efeito próprio e infalível, mas não desenvolve inteiramente seu poder, senão no espírito pronto a conservá-lo. Singular fascinação dessa corrente sutil, desse fluído vital que anima o membro do corpo místico.

Saint-Martin soube discernir o papel da iniciação e entendeu que seu mecanismo não ultrapassava “as leis da natureza corporal”. “Vós tendes razão”, escrevia a Willermoz, “de crer que a nossa sorte depende de nossas disposições pessoais, tendes ainda razão de crer que o grau… dá ao iniciado um caráter, nada é mais verdadeiro que a perfeita harmonia dessas duas coisas e não deve ter um efeito real que, sem dúvida, aumenta com o tempo, pelas instruções e pelos cuidados que cada um pode acrescentar-lhe”.

Louis Claude de Saint-Martin transmitiu a seus discípulos o depósito da iniciação, a fim de que germine naquele que é digno de recebê-lo e que purifique aquele que ainda não o é. “Se o poder da iniciação não opera sensivelmente pela visão, opera, não obstante, infalivelmente, como preservativo e prepara a forma daquele que se mantém puro, para receber instruções salutares quando o espírito o julga conveniente”.

Assim, sem aventais e sem fitas, sem vaidade e sem orgulho, a iniciação que Saint-Martin confere à sua Ordem, será a primeira etapa da única iniciação, da iniciação última, “a santa aliança que só se pode contrair após uma perfeita purificação”.