A prece segundo Louis-Claude de Saint-Martin

Por Christian Revisse

Se parece provável que Saint-Martin tinha uma atração natural pela oração, é bem possível que essa tendência tivesse sido desenvolvida por seu trabalho de Elu Cohen. Com efeito, essa preocupação aparece desde os seus primeiros passos no caminho Cohen e seu “Livro Vermelho” o caderno onde o jovem iniciado anotava suas reflexões, testemunha isso em numerosas passagens: “Purifica teu corpo, e em seguida apresenta-o à prece; o resto se fará naturalmente e este é todo o segredo”. Um outro texto, da época em que Saint-Martin era um Elu-Cohen ativo, evidencia esse interesse. Saint-Martin explica: “A prece é o verdadeiro alimento da alma, é quando ela coloca principalmente em ação todas as suas faculdades; também é dela que ele retira suas maiores forças e toda evidência da luz . O estado da alma na oração é um combate em que ela se despoja de tudo que lhe seja estranho, para se renovar com toda pureza, claridade e sublimidade de sua natureza”.

O interesse pela oração cresce continuamente no espírito do Filósofo Desconhecido e os textos em que ele se expressa a esse respeito são muito numerosos. O primeiro a chamar nossa atenção é o que tem por título “A Prece”. É um pequeno tratado sobre o que é a oração e o modo de praticá-la. Saint-Martin salienta que a prece possui um aspecto fundamental. Ela é “como a consumação”, a vivência de verdades que o conhecimento e o estudo apenas entremostram. Ela é participação do conhecimento, ela faz penetrar naquele “magismo divino que é a vida secreta de todos os seres”. Essa participação no mistério da Criação, Saint Martin a chama “a admiração”. Essa prece é uma contemplação. Se a prece propiciava longas invocações com Dom Martinez, a de Saint-Martin se ocupa pouco com palavras, ela é o silêncio do ser na presença do Ser. Pouco importam as palavras; é o coração que deve falar nessa comunhão, não a cabeça. Não há qualquer necessidade “dessas preces que somos obrigados a recitar por toda parte, espremendo-as em fórmulas ou em pueris e escrupulosos hábitos”. O trabalho de adoração que Saint-Martin preconiza consiste em abandonar a vontade humana para permitir que circule a vontade divina. Abrir o coração para ali deixar entrar aquele que nada mais deseja senão penetrar em seu santuário, o coração do homem. Nessa comunhão não é mais o homem que ora a Deus, mas Deus que ora no homem.

Mas essa comunhão total o discípulo só atinge depois de certa preparação. Pois “essa obra é tão importante que deves te guardar de desejá-la antes que tuas substâncias estejam suficientemente puras e fortes para suportá-la”, pois o puro não se mistura com o impuro. Além disso, Saint-Martin dá um conselho àquele que deseja conhecer essa inefável luz: “Purifica-te, roga, recebe, age, toda a obra está contida nesses quatro tempos”. Segundo Saint-Martin, a prece constitui a chave fundamental da jornada mística, da iniciação, que, para ele e Dom Martinez, regenerará o quaternário menor. Essa prece se parece com a meditação, com a comunhão silenciosa com Deus. E o meio pelo qual o homem pode atingir as esferas superiores, de que as esferas visíveis são tão-somente imagens imperfeitas.

Vimos que para Dom Martinez a prece parecia ser essencialmente vocal, enquanto que até agora, no que se refere a Saint-Martin, acentuamos o lado “silencioso”. Mas observemos que Saint-Martin vê nos dois procedimentos virtudes que são ao mesmo tempo diferentes e complementares. Segundo ele, a prece mental tem uma força igualmente defensiva e atrativa com relação ao Bem, enquanto que a prece vocalizada acrescenta a essas mesmas qualidades o poder “de vencer o inimigo, o que a torna superior”. A prece muda é aconselhada pelo Filósofo Desconhecido para aquecer o coração, quando este está seco e vazio de Deus. Mas, assim que o coração esteja pleno dessa Presença, ele aconselha a prece verbal, pois que então ela é o “ser”, o verbo. Para Saint Martin a prece é um ato, o ato mais puro de que o homem é capaz O pedido do homem unido ao pensamento de Deus pela vontade se manifesta na ação, e ao imitar Deus essa ação é Verbo.

Saint-Martin nos deixou um belo testemunho sobre a oração, as “Dez Preces”. Provavelmente ele compôs essa coletânea de orações já no fim da vida. Esses textos testemunham que a prática da oração foi uma constante na vida interior do Filósofo Desconhecido.

Deixaremos que ele conclua com um conselho que resume perfeitamente o propósito deste trabalho: “O segredo de nosso progresso consiste na oração, o segredo da prece na preparação, o segredo da preparação numa conduta pura, o segredo de uma conduta pura no temor a Deus, o segredo do temor a Deus em seu amor. Assim, o amor é o princípio e o centro de todos os segredos.”