Cinco Estágios da Aprendizagem

“No contexto teosófico, o processo probatório é aquele tipo de caminhada em que enfrentamos conscientemente desconforto, sabendo que este é o preço a pagar pelo alargamento de horizontes e pelo progresso na direção da sabedoria.

Ninguém alcança uma quantidade importante de conhecimento sem antes lidar com dificuldades pelo caminho. Até o processo pelo qual somos alfabetizados, na infância, implica esforço e sacrifício.

Em qualquer esfera da vida, através da provação passamos a merecer a bênção. A bem-aventurança do conhecimento vem por estágios: cada processo de testes prepara a chegada a um determinado patamar de compreensão.

Os testes fortalecem e consolidam gradualmente o saber, até torná-lo definitivo. A provação nunca é um fato isolado: é uma onda de aparentes armadilhas e verdadeiras lições, na qual podemos ver cinco etapas.

1) O primeiro patamar começa com a decisão de buscar a sabedoria. Nele reconhecemos o significado do sofrimento. Os obstáculos não surgem por acaso: são as linhas aparentemente imperfeitas pelas quais a Lei do Carma redige o ensinamento sagrado para a leitura da nossa alma. O carma escreve certo por linhas tortas. É preciso ver o que está escrito nas entrelinhas. Neste estágio percebemos que a tarefa diante de nós é aprender: Tomamos a decisão de olhar para tudo o que nos rodeia como lições.

2) Na segunda etapa, a inteligência expandiu-se e está a serviço do coração. As ideias ganham sempre mais clareza. Paradoxalmente, os obstáculos se multiplicam. A mente iluminada vê a escuridão do mundo e sofre com ela. “Quanto mais eu rezo, mais assombrações aparecem”, diz o ditado popular. À medida que compreendemos melhor a vida, multiplicam-se as coisas na aparência incompreensíveis. Os obstáculos atacam os nossos pontos mais fracos. Uma e outra vez, a intensidade do desconforto ameaça afastar o foco da mente para longe do nosso ideal. Lutamos com nós mesmos. Estamos divididos entre o sacrifício e o apego. E mesmo assim avançamos.

3) Quando há um contato contínuo com a voz sem palavras da nossa consciência, uma grande batalha está ganha e abre-se a terceira etapa. A consciência ainda está numa posição defensiva: a provação prossegue na sua intensidade máxima, embora o maior perigo tenha passado. No terceiro estágio o indivíduo adquire uma vontade inquebrantável e sabe que o tempo corre a seu favor. As dificuldades parecem imensas: quando ele processa e compreende todos os desafios, passa a reunir força interna e magnetismo para a etapa seguinte.

4) No quarto patamar de aprendizagem, ele constrói a sua libertação enquanto partilha com os outros o que possui de valioso no que diz respeito à compreensão da arte de viver. Agora o peregrino trabalha criativamente. Enfrenta ameaças e armadilhas com naturalidade. Os perigos perderam força no seu mundo interno. Ele os conhece de longe. Já não dá importância ao desconforto da caminhada. O sentimento de felicidade ganha força, porque o centro da sua alma vive mais no plano da bondade e menos no plano da dor. O processo de provação abre espaço pouco a pouco para a bem-aventurança.

5) O quinto estágio é a parte da libertação. Nele, o peregrino domina o conhecimento e dispõe do grau correspondente de felicidade.

As cinco parcelas estão contidas em cada momento. De certo modo, os estágios coexistem entre si o tempo todo. O peregrino deve olhá-los como um conjunto integrado. Quando os conhece bem e tira o melhor de cada um, ele está pronto para abordar outro patamar ainda mais amplo de aprendizado”.
(Carlos Cardoso Aveline)

Perspectivas Gnósticas na Era da Informação

“A pós-modernidade está inexoravelmente interligada ao conceito e também à realidade da era da informação. Os cientistas que concluem a partir de seus cálculos que o caos pode ser mais real do que o cosmos, e os literatos e críticos que estão ocupados desconstruindo a literatura e as ciências sociais, todos realizam o seu trabalho primeiramente recorrendo às informações que aparecem nas telas de seus computadores, a ponto de os intelectuais de hoje que sabem do gnosticismo provavelmente o interpretarem como informação. Neste ponto, um dos escritores mais criativos da literatura imaginativa, Philip K. Dick, que incorporou muito entusiasmado o gnosticismo em vários de seus livros, interpreta a gnose simplesmente como ‘informação’. Mas a gnose é realmente mais do que informação? A alta conta em que a informação é mantida atualmente é sem dúvida devido à influência do computador, que se tornou um principal instrumento de informação. Uma vasta quantidade de informação, como também uma vasta quantidade de desinformação, atinge incontáveis mentes diariamente através da tela do computador. Nossos deuses mais recentes são os dados que evocamos magicamente na tela que prometem nos conectar com tudo que existe e que possivelmente poderia ser.

É um truísmo que a informação seja tão boa quanto a fonte da qual ela deriva. Uma verdade menos frequentemente mencionada é que a informação é também tão boa quanta a mente de quem a recebe. Na era da informação, a tentação de uma certa arrogância cognitiva, que já está bem desenvolvida em nossa cultura, cresce cada vez mais. A arrogância cognitiva pode ser definida como a suposição de que porque alguém tem acesso à informação, ele sabe o que é verdadeiro e útil e não precisa da tradição ou da fonte de inspiração, além do ego consciente e seus recursos de dados. Nos assuntos espirituais, essa arrogância pode ser realmente infeliz. Uma pessoa pode decidir reunir e escolher informações sobre uma natureza espiritual eleita numa tentativa de sintetizar sua única escada para o céu. A tela do computador, ou qualquer fonte de informação, torna-se uma vasta mesa em uma cafeteria de ideias, onde alguém pode tocar de leve, como em um ‘bufê a quilo’, para o contentamento do ego.

Na era da informação, encontra-se frequentemente a grandiloquente declaração: ‘Sei o que é melhor para mim! Escolherei o que se adapta às minhas reivindicações únicas’. Isso equivale a uma pessoa doente dizer para um médico qualificado: ‘Conheço o meu corpo. Escolherei eu mesmo os medicamentos, sem considerar a sua experiência médica’. Ou mais simplesmente, é como uma criança que vai a um restaurante e afirma: ‘Vou comer o que for mais gostoso’. Os budistas possuem uma resposta eficaz para esse tipo de arrogância. eles dizem que oferecem a iluminação, e quando uma pessoa faz perguntas sobre ela é precisamente porque ela não é iluminada e primeiro precisa reconhecer a sua própria falta de iluminação. Uma pessoa não-iluminada, dizem os budistas, está iludida e por isso escolherá com base nas suas próprias ilusões. Por isso é necessário uma tradição válida, com professores esclarecidos e práticas autênticas para primeiro diminuir e depois remover a ilusão.

Gnose não significa informação, embora o gnosticismo, veículo da gnose, possa conter alguma informação. Contudo, mesmo aqui, é preciso ter cuidado. A informação gnóstica é bem diferente da maioria das outras informações. Ela contém mito, insight visionário, estímulos psicoespirituais, processos mágicos e muito mais. Tratar esse material como um compêndio de dados, puro e simples, seria desastroso. A tradição gnóstica existe em parte para tornar esse tipo de informação assimilável para a mente não treinada em imagens, realizações e linguagem gnósticas. Estabelecer alguém acima de uma tradição que tem as suas próprias estratégias, seu próprio modo de enxergar a realidade e as suas próprias práticas espirituais é fútil e tolo.

A nossa era está pesadamente saturada de informação e continua voraz, esperando mais. Parece que quanto maior a frequência com que acumulamos informações, menos reais as nossas vidas se tornam. As pessoas ficam muito desconcertadas com a tecnologia da qual dependem, e muitas vezes frustradas pela informação que recebem através desta mesma tecnologia. Viciados da era da informação, frequentemente esquecemos que existe um outro tipo de conhecimento possível, no qual falar menos muitas vezes significa saber mais, e o êxtase da visão substitui a ganância dos fatos. A gnose raramente ofereceu fatos ou até teorias; o que ela sempre ofereceu foi experiência. Em um mundo no qual a informação se torna obsoleta em horas, pode ser que este tipo de insight informador seja o que mais urgentemente necessitamos”.

(Stephan A. Hoeller)

A melhor e mais segura Via para Deus

“Deus é o inimigo dos entendimentos pessoais e arrogantes: Ele volta-lhes as costas, porque eles se consideram sábios e eruditos, e porque eles querem ler no livro dos Seus Segredos com os óculos da razão. Aquele que pede a Deus o Seu Espírito Santo, sem cessar, encontrará a melhor e a mais segura via, e receberá um guia que o conduzirá em todos os abismos, lhe abrirá todas as fechadura e todas as portas; é assim que nos prestam testemunho, e que nos ensinam pelo seu exemplo, todas as pessoas iluminadas; fora disso, não se encontra nada. De acordo com isso, o pesquisador esfomeado não limitará o seu Estudo à leitura e à ciência escrita; ele pensará também em começar o seu caminho e ao lado da oração assídua, ele odiará a vida terrestre, procurará a interior, assim como eu fiz: ele reconhecerá assim que as lições e os ensinamentos vêm de Deus”. (J. G. Gichtel)

O Sincretismo da Filosofia Rosacruciana

“O julgamento mais frequente a respeito da filosofia rosacruciana enuncia o caráter de sincretismo do tratado (nota do editor: o autor aqui refere-se ao Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz): ‘Trata-se de uma síntese compósita’, escreve Serge Hutin nas Sociedades Secretas, ‘que reuniu os vestígios de todas as tradições mais ou menos secretas que haviam caminhado subterraneamente durante toda a Idade Média e o Renascimento’. Nesta Webster fala de um ‘composto de antigas doutrinas esotéricas, da magia árabe e síria, de cabalismo judeu, em parte herdado dos Templários’ (?)”.

(Bernard Gorceix)

O Martinismo e os “chocalhos”

“O Martinismo é, acima de tudo, uma alavanca de desenvolvimento individual e um esforço no sentido da penetração da ciência viva. Como tal, procura dar ao homem de desejo a sensação de sua humildade e da mesma vitalidade que ele pode retirar deste entendimento.

Nós não somos um novo rito maçônico, não damos aos homens da torrente o gosto por fitas multicoloridas e títulos poderosos; o homem que pensa e que aspira compreender as forças ativas não possui a necessidade desses chocalhos.”

(Papus)

Symbolon

“A palavra símbolo vem da palavra grega symbolon, que combina duas raízes – sym, que significa junto ou com; e bolon, que significa aquilo que foi colocado. O significado básico é, por conseguinte, ‘aquilo que foi colocado junto’. No uso grego original, os símbolos referiam-se às duas metades de um objeto, tal como uma vara ou uma moeda, que duas partes dividem entre si como um sinal de compromisso e que mais tarde serve de prova de identidade daquele que apresentar uma das partes diante daquele que está de posse da outra. O termo correspondia à palavra inglesa tally [entalhe], que o dicionário Webster descreve do seguinte modo: ‘Após marcar numa vara, com entalhes, a quantidade ou o número de bens enviados, os comerciantes costumavam dividir essa vara em sentido longitudinal, passando por todos os entalhes, de modo que as metades resultantes correspondessem entre si exatamente, ficando o vendedor com uma das partes e o comprador com a outra’. Portanto, um símbolo era, originalmente, uma tally, referindo-se à parte de um objeto que lhe faltava, parte essa que, quando restituída à outra parte, ou colocada junto dela, recriava o objeto inteiro original. Isso corresponde à nossa compreensão da função psicológica do símbolo. O símbolo nos leva à parte que falta do homem inteiro. Ele nos põe em relação com nossa totalidade original e cura nossa divisão, nossa alienação da vida. E como o homem total é bem maior que o ego, o símbolo nos põe em relação com as forças suprapessoais que constituem a fonte de nossa existência e do significado que temos. Essa é a razão para que se honre a subjetividade e para que se cultive a vida simbólica.” (Edward Edinger)

Como alcançar a Vida Suprasensível

O Discípulo pergunta ao Mestre: “Como posso alcançar a vida suprasensível, a fim de poder ver e ouvir a Deus?”
Seu Mestre responde: “Quando puderes lançar-te, por um instante, naquele lugar onde nenhuma criatura habita, então ouvirás o que Deus fala”.
Discípulo: “Isto está perto ou longe”?
Mestre: “Está em ti, e se puderes, por um momento, cessar todo o teu pensamento e a tua vontade, ouvirás as inexprimíveis palavras de Deus”.
Discípulo: “Como posso ouvi-Lo apenas detendo meus pensamentos e minha vontade?”
Mestre: “Quando detiveres o pensamento e a vontade do eu, então o eterno ouvir, ver e falar, serão revelados a ti. Teu próprio ouvir, tua própria vontade e visão, te ocultarão, a fim de que tu não vejas e não ouça a Deus”.
Discípulo: “Mas como poderei ouvir e ver a Deus, estando Ele acima da natureza e da criatura?”
Mestre: “Quando estiveres quieto e silencioso, serás como era Deus antes da natureza e da criatura, então ouvirás e verás do modo como Deus viu e ouviu em ti, antes de tua própria vontade, visão e audição ter início”
(Jacob Boehme)

Espiritualidade verdadeira é simples

“A espiritualidade não é ficar adorando Mestres, Santos e Anjos.
Não é brincar de ser Arcturiano, Oriano, Siriano, Ser Cristal, índigo, Diamante.
Não é dizer que está desperto.
Acreditar em Deus não é dizer que é do raio azul ou verde, nem muito menos ficar decretando que é luz, amor, “eu posso”, “eu sou”
Não é rezar, orar, praticar yoga, exercer práticas intermináveis, ler incansáveis livros, participar de retiros, não é ler canalizações, nem ser canalizador.
Não é saber, conhecer, não é fazer dietas ditas especiais, usar roupas indianas, não é visitar Machu Pitchu, Índia, Himalaia, Nepal, templos, igrejas, lugares ditos mistícos, viver em aldeias, ecovilas, não é ser reconhecido como médium, bruxo, mago, guru, cigano, monge.
Espiritualidade não é rituais, magias, bruxarias, enfim.
A real Espiritualidade não é um parque de diversões onde adultos infantilizados se portam como super-heróis.
Isso tudo é identificação, querer estar, participar de um mundo que o alimente e lhe diga que você é Espiritualista.
Isso é Ego, Ilusão.
Espiritualidade verdadeira é simples, é Ser, apenas despertar e assimilar a sua Real Natureza que É.
Quando isso acontece, nada daquilo escrito acima existe.
Toda essa imaginação ilusória se dissolve e você se torna quem sempre foi, a Divina Consciência.
Nessa existência, o real desperto apenas observa e se apercebe das ilusões, a partir da qual ele, como sujeito de um experimento, evolui em suas percepções.”

(Rommy Fleck)

O Discípulo deve entender o que faz

“O Quarto Caminho difere dos outros porque a sua principal exigência ou pré-requisito é o que o discípulo entenda o que faz. Um homem não deve fazer nada que não entenda, que não faça sentido para ele. Poucas excepções se abrem quando está sob a supervisão de seu mestre. Quanto mais um homem entende o que faz melhores resultados vai obter de seus esforços. Esse é um princípio fundamental do Quarto Caminho. Os resultados de um Trabalho são proporcionais à consciência que se tem desse Trabalho.”

(Gurdjieff)

Breve Histórico do Martinismo no Brasil

“Até os dias de hoje, muito pouco, ou quase nada, foi escrito sobre a história do desenvolvimento do Martinismo no Brasil. Apenas alguns fragmentos, aqui e acolá, nas velhas bibliotecas particulares de uns raros iniciados ou contada de boca-a-ouvido. Reconstituir essa história é uma tarefa difícil e demorada na qual nos empenhamos, sabendo desde já que uma grande nebulosa cobre o passado das Sociedades Secretas.

Logo após a grande expansão do Martinismo no mundo, dada por Gerard Encausse – PAPUS, encontramos registros de uma primeira Delegação Nacional para o Brasil, através de uma Carta Patente nº 141, dada pelo próprio Papus, em 1904, a um de seus Iniciados: Dario Velozo.

O poeta, filósofo e professor Dario Velozo, de nome simbólico APOLÔNIO, nascido em 26 de Novembro de 1869, desenvolveu na cidade de Curitiba um trabalho pioneiro mas efêmero de divulgação do Martinismo, tendo dedicado-se principalmente ao seu “Instituto Neopitagórico”, instituição iniciática ainda existente que se dedica aos estudos filosóficos nos moldes dos antigos gregos.

Dos precursores do movimento Martinista, um nome se faz necessário render homenagem: António Olívio Rodrigues, AOR, nascido em Portugal em 1879, chegou ao Brasil em 1890. Com vinte anos de idade já interessava-se pelos estudos iniciáticos e como um verdadeiro buscador, veio a encontrar a iniciação em 1907, em uma Loja Martinista que trabalhava silenciosamente em São Paulo, sob a direção do não menos importante e venerável, Dr. Horácio de Carvalho, que era, por sua vez, iniciado de Papus.

AOR deu uma contribuição imensurável à iniciação com seu trabalho de divulgação, através a criação do “Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento”. O Círculo Esotérico constituiu-se, sem dúvida, no maior divulgador, não do Martinismo, mas do Ocultismo, que era a esta altura, incipiente no país. Daí a grande dificuldade de se desenvolver o Martinismo.

O Circulo Esotérico foi uma associação que congregou na primeira metade do século, mais de cem mil membros ativos, com palestras, cursos, reuniões e publicações de livros. A Editora “O Pensamento” foi que trouxe ao país as obras de Eliphas Levi, Papus e tantos outros. AOR veio a falecer em 1943.

Ainda como colaborador do Círculo Esotérico temos a importante figura de Francisco Waldomiro Lorenz, aliás SÉVAKA, S.I.I, Doutor em Kabala, nascido na Boêmia, província da Tchecoslováquia, em 24 de dezembro de 1872. Teve, ainda na Boêmia, aos 18 anos de idade, editado seu primeiro livro. Grande iluminado, de reconhecida cultura, falava 72 línguas, entre vivas, mortas e dialetos. Publicou no Brasil vários livros como “Noções elementares de Cabala”, “Lições Práticas de Ocultismo Utilitário”, “Raios de Luz Espiritual”, além muitas outras obras, redigiu por mais de 20 anos, o “Almanaque do Pensamento”, editado até hoje pela Editora Pensamento.

O espírito do Martinismo porém, vem até nós por um outro Iniciado, Albert Raymond Costet – Conde de Mascheville, aliás CEDAIOR, como viria a ser conhecido no meio iniciático. Nasceu em Valence, na França em 1º de Setembro de 1872. Aos treze anos deixou sua terra natal para continuar seus estudos de violino no Conservatório de Paris. Nesta ida à Paris permaneceu alguns dias em Lyon onde teve a felicidade de conhecer o Iniciado Philippe Nizier.

Foi iniciado em 1892 por Ivon Leloup – SEDIR. Tornou-se, pouco depois, Mestre de Cerimônias da “Loja Hermanubis” que era presidida por Sédir e na qual se estudava especialmente a Tradição Oriental. Em 1893 já era S.I. e Sacerdote Gnóstico. Em 1894 fora consagrado Bispo pelo próprio Patriarca da Igreja Gnóstica: Jules Doinel – VALENTINIUS.

Junto com seu iniciador, CEDAIOR, realizou uma quantidade de experiências de psicometria e se dedicou, nos anos de 1889 até 1909 a Maçonaria, Martinismo e ao Orientalismo. Fez em Paris e arredores, junto com Oswald Wirth, uma campanha de conferências sobre simbolismo, em lojas de diferentes Ritos sem resultados alentadores.

Inspirado pela profecia de seu Mestre espiritual Valentinius que disse: “Tudo o que fazes na França é apenas preparatório para tí. A tua missão pessoal é do outro lado do mar. Nada mais és para o velho mundo!”, Cedaior juntamente com sua esposa e seu filho decide dar um novo rumo a sua caminhada iniciática. Desembarcam em 26 de Fevereiro 1910, em Buenos Aires, Argentina, trazendo consigo apenas sua “bagagem” intelectual. É importante destacar que na época Cedaior já era Doutor em Kabala, pela Ordem Kabalística da Rosa Cruz, de Stanislas de Guaita.

O trabalho de divulgação do Martinismo é então, muito difícil e rende poucos frutos, apesar do contato travado por Cedaior com os maçons do sul do continente. Na Argentina funda a Igreja Expectante, em 17 de Agosto de 1919.

É devido a grande amizade desenvolvida com uma brasileira, Sra. Ida Hoffmann, que Cedaior decide investir seu trabalho no Brasil. Em 1923, chega finalmente ao Brasil, indo inicialmente morar em um sítio de propriedade da Sra. Ida Hoffmann, aliás PEREGRINA, na cidade de Joinville, estado de Santa Catarina. Ida Hoffmann era iniciada de Theodor Reuss, o alemão que era Grão Mestre do Rito Antigo e Primitivo de Menphis-Misraim e chefe da O.T.O. – Ordo Templi Orientis.

Em 30 de Novembro de 1924, retorna o Brasil e seu filho mais velho, Léo Alvarez Costet de Mascheville, que estivera dois anos na frança prestando serviço militar e aproveitando para manter contato nos meios Martinistas. Léo de Mascheville, foi iniciado por seu pai em 1920, adotando o nome simbólico de JEHEL.

A chegada de Jehel dá um novo alento aos que aqui estavam e com seu entusiasmo incita o pai a empreenderem juntos uma nova investida no sentido de acender definitivamente a chama do Martinismo no Brasil. Assim, a família faz novamente as malas e muda-se para Curitiba, cidade onde finalmente conhecem Darío Velozo, com o qual já se correspondiam por carta há muitos anos.

Jehel e Cedaior propõem a Darío Velozo fazerem um movimento de reorganização do Martinismo no continente. Mas este, devido a sua idade avançada e precário estado de saúde, prefere transferir as funções do cargo de Soberano Delegado Geral para o Brasil para Cedaior, permanecendo porém um dedicado amigo.

Em 22 de Agosto de 1925 é fundada em Curitiba a Loja “Hermanubis”, em homenagem `a primeira loja que Cedaior frequentou em Paris, sendo Jehel seu Phil… Desc…, situada discretamente na Rua 15 de Novembro junto às oficinas do Jornal “Diário da Tarde” que era de propriedade do Dr. Generoso Borges de Macedo – GEMINI.

Fundam no ano seguinte a Loja “Papus” em Goiás. Nos anos em que se seguem, pai e filho difundem o Martinismo pelo Brasil, quando enfim, em 1931, radicam-se em Porto Alegre, sul do Brasil.

É em Porto Alegre que reúnem um conjunto de fatores propícios à causa, como a prosperidade financeira e o encontro de “solo fértil”, isto é, de homens realmente aptos a via iniciática. Finalmente começa o impulso mais forte dado ao Martinismo no país até então.

Em 1936 Cedaior muda-se novamente. Vai residir em São Paulo, junto aos Martinistas desta cidade. Todavia, devido a sua idade, transfere a direção da Ordem ao seu filho Léo de Mascheville (Jehel). É necessário que se faça aqui uma ressalva. Apesar de tudo o que aprendemos tradicionalmente de boca-a-ouvido, é preciso reconhecer que a grande expansão realizada no Martinismo na América do Sul se deve ao trabalho de Léo de Mascheville, como veremos adiante.

Até o ano de 1936, o Martinismo no Brasil se expandia de maneira tímida, de homem-a-homem, com poucas lojas estabelecidas, sem um órgão central.

Em 28 de Setembro de 1937 falece Dario Velozzo.

É apenas em 23 de Dezembro de 1939 que é fundada, em Porto Alegre, Brasil, conforme sua Constituição Geral, a “Ordem Martinista da América do Sul”, vindo a congregar praticamente todos os Martinistas em atividade no Brasil, Argentina e Uruguai.

A Ordem esta formada, conforme as próprias palavras de Jehel, “como uma miniatura da Ordem estabelecida por Papus”. Assim, sua estrutura interna era semelhante a elaborada por Papus, tentando manter a maior fidelidade à tradição do Martinismo. Conforme sua Constituição Geral, promulgada em 14 de Março de 1940, soberana e independente de qualquer órgão central Francês.

O rito era composto por três graus os quais se ascendia mediante exame: Associado, Iniciado e Superior Incógnito, somando-se ainda a dignidade de Iniciador. Sua ritualística, paramentos, decorações de loja, etc… eram nitidamente inspirados no famoso “Rituel dressè par TEDER”.

Conforme as palavras de Jehel o funcionamento das Lojas se dava da seguinte maneira: “Cada Iniciador tem a obrigação de ajudar a seus Discípulos a estudarem os “Programas de cada grau…” que consistiam no estudo de simbolismo maçônico, tarot, alfabeto hebraico, Cabala, astrologia, magnetismo, magia, teurgia, evangelhos, obras de Saint-Martin e outros mestres, etc.. “Nas cerimônias coletivas, semanais, as reuniões têem caráter múltiplo: além da parte ritualístico-mística, que alimenta a alma psíquica e a Egrégora; fazem-se experiências magnéticas, outras de percepções metapsíquicas, etc.. E sem dúvida, a parte mais essencial e útil, é cadeia de união, para a prece mágico-mística…”

São criados os G.I.D.E.E, Grupos Independentes de Estudos Esotéricos em Montevideo, Buenos Aires e La Plata. E em Abril de 1942, o órgão oficial da Ordem: a revista “La Iniciación”, nos moldes da revista francesa, foi publicada até Outubro de 1947.

Foram também publicadas as traduções de vários livros clássicos em duas coleções: “La Biblioteca de la Orden Martinista” e “La Biblioteca de la Orden Kabalística de la Rosa+Cruz”.

Como ordem “interior” funcionam os trabalhos da “Ordem Kabalística da Rosa+Cruz” com seus graus de: Bacharel em Kabala, Licenciado em Kabala e Doutor em Kabala. Sendo considerados respectivamente o 5º, 6º e 7º graus da Ordem Martinista.

A Ordem Martinista da América do Sul recebeu também influência do Martinismo do Chile através de Leon Tournier (Grupo Bethel), que era iniciado de Papus, mas tinha Carta Constitutiva emanada do Martinismo Lyonês.

Paralelamente funcionam ainda a “Igreja Gnóstica” e o “Suddha Dharma Mandalam”, que era uma escola de filosofia Hindu, que chegou ao Brasil via Chile e que propagava as práticas das diversas linhas de Yoga.

Em 22 de Janeiro de 1943, em Porto Alegre, falece CEDAIOR

Este trabalho de expansão pode ser confirmado pelo bom número de “Grupos de Estudo” em funcionamento, bem como um grande número de Iniciados. Em 29 de Outubro de 1944, (em plena II Guerra Mundial) é concedida a Carta Constitutiva nº 23 ao “Grupo de Estudos Mahasaya” e apenas um dos Iniciadores atingia a cifra de 155 iniciados. Totalizavam 23 “Grupos”, 5 “Lojas” e 442 iniciados.

Em meados de 1945 ocorre um cisma entre alguns membros, vindo a Ordem a se dividir em facções: A “Ordem Martinista da América do Sul” que é assumida por Pedro Pinto Soares Freire, de nome simbólico ATHAUALPA ou ainda MAUÁ, atuando no Brasil; a “Ordem Martinista” ramo continuado por Jehel, com sua sede em Montevideo, Uruguai; e a “Ordem Martinista Universal” com sede no Rio de Janeiro.

Pedro Freire, ou Athaualpa, era S.I.I, tendo recebido o diploma de Doutor em Kabala de Francisco Waldomiro Lorenz, SÉVAKA, e posteriormente foi nomeado PATRIARCA da Igreja Gnóstica por Robert Ambelain, AURÍFER. Tal investidura foi muito contestada na época, sendo hoje apenas um dos diversos ramos da Igreja Gnóstica pelo mundo.

Desta geração de Iniciadores, cabe ainda salientar a figura do Dr. Ernesto Braga, tido por seus discípulos como um iniciado de ordem superior.

Contou-nos um de seus últimos discípulos, um episódio pitoresco que pode ilustrar a figura que era o Dr. Braga e a aura de misticismo que o rodeava: O rapaz, que não é conveniente revelar seu nome, empreende uma viagem de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Durante o voo, o avião passa por uma enorme turbulência. Voando pela primeira vez, é acometido de um forte enjoo seguido de vômitos. Desesperado, tranca-se no toalete e suplica mentalmente: “Braga, por favor, me ajude!”. Aterrissando o avião no Rio de Janeiro, restabelecido do seu enjoo, o rapaz resolve comprar um presente para levar para seu Mestre.

Passado alguns dias, tendo retornado a Porto Alegre, foi a reunião semanal Martinista a qual era presidida pelo Dr. Braga, aproveitando a oportunidade para presenteá-lo. Ao encontrar seu mestre, estando vários irmãos no mesmo recinto, em ambiente de muita amizade e camaradagem, desafia o Dr. Braga a adivinhar o que contém o embrulho.

O Dr. Braga responde:

– “Não vou adivinhar, porque eu sei o que há dentro deste pacote. No momento em que tivestes a boa ideia de me presentear, fizeste uma conexão mental comigo, e eu te vi. Aliás, tu já havias chamado por mim no avião quando passaste mal. E, grato pela assistência que supôs que te prestei, resolveste comprar um presente para mim. Foste numa grande loja no centro do Rio, e no bazar do terceiro andar encontraste um objeto que julgaste adequado para me presentear: uma estatueta do Buda.”

Abriu o pacote e lá havia uma estatueta do Buda!

No início dos anos 70 alguns membros decidem retomar o contato com o velho mundo. Tal movimento é encabeçado por Ary Ilha Xavier.

Ary Ilha Xavier – SEDIR, nasceu em Santa Maria, em 9 de Junho de 1932. Veio para a iniciação através da Maçonaria, fazendo parte da Loja Eureka nº27 ainda existente na mesma cidade. A dita Loja Maçônica foi, durante muito tempo, um local de onde eram selecionados os elementos a serem iniciados no Martinismo. Foi lá que veio a conhecer Martinistas como Pedro Freire – ATHAUALPA e Otto Germano Beust – KUNRATH. Este último nasceu na mesma cidade em 18 de Janeiro de 1911, tendo militado por mais de 30 anos nas Ordens Iniciáticas do Ocidente.

Foi em 1973 que Ary Ilha Xavier fez sua primeira viagem à Paris fazendo um primeiro contato com Robert Ambelain. Com uma longa conversa, Ambelain o aconselha a procurar Phillipe Encausse, então Presidente da Câmara de Direção da Ordem Martinista e filho de PAPUS.

Após vários contatos com Phillipe Encausse, Ary Ilha Xavier é reconhecido como S.I.I. Martinista e é nomeado Soberano Delegado Nacional da Ordem Martinista para o Brasil.

Dos vários contatos estabelecidos na Europa por Ary Ilha Xavier, podemos destacar a conexão com o Rito Escocês Retificado na França; com Ivan Mosca – HERMETE, na Itália; e com José de Via – PERSIVAL, na Espanha.

A publicação do livro “Temas de Ocultismo Tradicional” de Persival, fora proibida na Espanha. Como um último pedido de um velho iniciado, Persival pede a Ary Ilha Xavier que publique o seu livro no Brasil.

Antes de partir para o Oriente Eterno, Persival pode ainda ver a sua obra impressa.

Em 1976 temos a visita do então Delegado da Ordem para as Américas: Emilio Lorenzo, com sua esposa Maria Lorenzo. Tal delegação faz visitas a grupos Martinistas na Argentina, Uruguai e permanece por 40 dias no Brasil. Haviam aqui, filiados a “Ordre Martiniste”, sob a jurisdição do então Delegado Nacional, cerca de trinta membros, distribuídos em três “Grupos Martinistas”. Sendo o Grupo Louis Claude de Saint-Martin nº85, sede da Delegação da Ordem para o Brasil, em funcionamento na cidade de Cachoeira do Sul, dirigido por Ary Ilha Xavier.

A Ordem Martinista via uma acelerada expansão quando foi abalada por dois acontecimentos relevantes: a morte em 12 de Abril de 1978 de Ary Ilha Xavier, de câncer e de Otto Germano Beust, acometido de uma trombose cerebral na noite de 23 de Setembro de de 1978, permanecendo em estado de coma profundo por 3 anos e 40 dias, vindo a falecerer 1º de Novembro de 1981 em Santa Maria. Este, dotado de clariaudiência, previu sua doença e data de sua morte com um ano de antecedência.

Como já dizia Eliphas levi “não se pode matar um Padre. Matando-se um Padre cria-se um mártir. Um padre mártir é a pedra fundamental de um seminário; e um seminário cria centenas de padres…” Assim, espelhando-se no exemplo desses iniciadores que tiveram como único escopo em suas vidas a busca da iniciação real, uma plêiade de iniciados se formou, (e vem se formando) com uma sede similar à de seus mestres.

Em todos os finais de século, ocorre em sua última década, uma grande onda de saudosismo e nostalgia. Como não poderia deixar de ser, o século vinte vê com estupefação, uma grande onda de entusiasmo na revitalização das ordens iniciáticas em todo o mundo.

São esses ciclos maravilhosos, que contam com a cumplicidade da Providência Divina e dos Mestres do Invisível, que se estabelecem na terra, de tempos em tempos.

Nós temos então, a felicidade de presenciar, e a oportunidade de viver (e não sermos vividos) esses momentos que ficarão na história da humanidade”.

(Irmão Jetro)