Como estar apto a conhecer os Mistérios de Deus

“Acima de tudo, examina contigo mesmo o propósito de conhecer os mistérios de Deus, e se estás preparado a empregar aquilo que receberes para a glorificação de Deus e para o benefício do próximo. Tu estás pronto para morrer inteiramente para a tua vontade terrestre e egoísta, e desejas, sinceramente, ser um com o Espírito? Aquele que não tiver tais propósitos elevados e busca apenas um conhecimento que satisfaça o seu eu, ou para ser admirado pelo mundo, não está apto a receber tal conhecimento”.

(Jacob Boehme)

A Natureza enquanto lampejo da origem do Fogo

“A Natureza pode ser considerada como um lampejo da origem do Fogo. É um estalo – uma região salina – quando parte para divisões infinitas, isto é, para a multiplicidade ou variedade do Poder e da Virtude. A multiplicidade dos Anjos e dos Espíritos e seus aspectos e operações também procederam dos Quatro Elementos no início dos tempos”.

(Jacob Boehme)

O Feminino, enquanto Símbolo

“Todo o simbolismo é, pois uma espécie de gnose, isto é, um processo de mediação por meio de um conhecimento concreto e experimental. Como uma determinada gnose, o símbolo é um conhecimento beatificante, um conhecimento salvador que, previamente, não tem necessidade de um intermediário social, isto é, sacramental e eclesiástico. Mas esta gnose, porque concreta e experimental, terá sempre tendência a figurar o anjo dentro dos mediadores pessoais do segundo grau: profetas, messias e, sobretudo, a mulher. Para a gnose propriamente dita, os anjos supremos são Sofia, Barbeló, Nossa Senhora do Espírito Santo, Helena, etc., cuja queda e salvação representam as próprias esperanças da via simbólica: a recondução do concreto ao seu estímulo iluminador. Porque a Mulher, como os Anjos da teofania plotiniana, possui, ao contrário do homem, uma dupla natureza que é a dupla natureza do próprio symbolon: criadora de um sentido e ao mesmo tempo receptáculo concreto desse sentido. A feminidade é a única mediadora porque simultaneamente passiva e ativa. Foi o que Platão já tinha expresso, é o que exprime a figura judia da Schekinah como a figura muçulmana de Fátima. A Mulher, é, pois, como o Anjo, o símbolo dos símbolos, tal como aparece na mariologia ortodoxa sob a figura da Teotokos, ou na liturgia das Igrejas cristãs, que se comparam facilmente, como intermediária suprema, como Esposa”. (Gilbert Durand)

Cinco Estágios da Aprendizagem

“No contexto teosófico, o processo probatório é aquele tipo de caminhada em que enfrentamos conscientemente desconforto, sabendo que este é o preço a pagar pelo alargamento de horizontes e pelo progresso na direção da sabedoria.

Ninguém alcança uma quantidade importante de conhecimento sem antes lidar com dificuldades pelo caminho. Até o processo pelo qual somos alfabetizados, na infância, implica esforço e sacrifício.

Em qualquer esfera da vida, através da provação passamos a merecer a bênção. A bem-aventurança do conhecimento vem por estágios: cada processo de testes prepara a chegada a um determinado patamar de compreensão.

Os testes fortalecem e consolidam gradualmente o saber, até torná-lo definitivo. A provação nunca é um fato isolado: é uma onda de aparentes armadilhas e verdadeiras lições, na qual podemos ver cinco etapas.

1) O primeiro patamar começa com a decisão de buscar a sabedoria. Nele reconhecemos o significado do sofrimento. Os obstáculos não surgem por acaso: são as linhas aparentemente imperfeitas pelas quais a Lei do Carma redige o ensinamento sagrado para a leitura da nossa alma. O carma escreve certo por linhas tortas. É preciso ver o que está escrito nas entrelinhas. Neste estágio percebemos que a tarefa diante de nós é aprender: Tomamos a decisão de olhar para tudo o que nos rodeia como lições.

2) Na segunda etapa, a inteligência expandiu-se e está a serviço do coração. As ideias ganham sempre mais clareza. Paradoxalmente, os obstáculos se multiplicam. A mente iluminada vê a escuridão do mundo e sofre com ela. “Quanto mais eu rezo, mais assombrações aparecem”, diz o ditado popular. À medida que compreendemos melhor a vida, multiplicam-se as coisas na aparência incompreensíveis. Os obstáculos atacam os nossos pontos mais fracos. Uma e outra vez, a intensidade do desconforto ameaça afastar o foco da mente para longe do nosso ideal. Lutamos com nós mesmos. Estamos divididos entre o sacrifício e o apego. E mesmo assim avançamos.

3) Quando há um contato contínuo com a voz sem palavras da nossa consciência, uma grande batalha está ganha e abre-se a terceira etapa. A consciência ainda está numa posição defensiva: a provação prossegue na sua intensidade máxima, embora o maior perigo tenha passado. No terceiro estágio o indivíduo adquire uma vontade inquebrantável e sabe que o tempo corre a seu favor. As dificuldades parecem imensas: quando ele processa e compreende todos os desafios, passa a reunir força interna e magnetismo para a etapa seguinte.

4) No quarto patamar de aprendizagem, ele constrói a sua libertação enquanto partilha com os outros o que possui de valioso no que diz respeito à compreensão da arte de viver. Agora o peregrino trabalha criativamente. Enfrenta ameaças e armadilhas com naturalidade. Os perigos perderam força no seu mundo interno. Ele os conhece de longe. Já não dá importância ao desconforto da caminhada. O sentimento de felicidade ganha força, porque o centro da sua alma vive mais no plano da bondade e menos no plano da dor. O processo de provação abre espaço pouco a pouco para a bem-aventurança.

5) O quinto estágio é a parte da libertação. Nele, o peregrino domina o conhecimento e dispõe do grau correspondente de felicidade.

As cinco parcelas estão contidas em cada momento. De certo modo, os estágios coexistem entre si o tempo todo. O peregrino deve olhá-los como um conjunto integrado. Quando os conhece bem e tira o melhor de cada um, ele está pronto para abordar outro patamar ainda mais amplo de aprendizado”.
(Carlos Cardoso Aveline)

Perspectivas Gnósticas na Era da Informação

“A pós-modernidade está inexoravelmente interligada ao conceito e também à realidade da era da informação. Os cientistas que concluem a partir de seus cálculos que o caos pode ser mais real do que o cosmos, e os literatos e críticos que estão ocupados desconstruindo a literatura e as ciências sociais, todos realizam o seu trabalho primeiramente recorrendo às informações que aparecem nas telas de seus computadores, a ponto de os intelectuais de hoje que sabem do gnosticismo provavelmente o interpretarem como informação. Neste ponto, um dos escritores mais criativos da literatura imaginativa, Philip K. Dick, que incorporou muito entusiasmado o gnosticismo em vários de seus livros, interpreta a gnose simplesmente como ‘informação’. Mas a gnose é realmente mais do que informação? A alta conta em que a informação é mantida atualmente é sem dúvida devido à influência do computador, que se tornou um principal instrumento de informação. Uma vasta quantidade de informação, como também uma vasta quantidade de desinformação, atinge incontáveis mentes diariamente através da tela do computador. Nossos deuses mais recentes são os dados que evocamos magicamente na tela que prometem nos conectar com tudo que existe e que possivelmente poderia ser.

É um truísmo que a informação seja tão boa quanto a fonte da qual ela deriva. Uma verdade menos frequentemente mencionada é que a informação é também tão boa quanta a mente de quem a recebe. Na era da informação, a tentação de uma certa arrogância cognitiva, que já está bem desenvolvida em nossa cultura, cresce cada vez mais. A arrogância cognitiva pode ser definida como a suposição de que porque alguém tem acesso à informação, ele sabe o que é verdadeiro e útil e não precisa da tradição ou da fonte de inspiração, além do ego consciente e seus recursos de dados. Nos assuntos espirituais, essa arrogância pode ser realmente infeliz. Uma pessoa pode decidir reunir e escolher informações sobre uma natureza espiritual eleita numa tentativa de sintetizar sua única escada para o céu. A tela do computador, ou qualquer fonte de informação, torna-se uma vasta mesa em uma cafeteria de ideias, onde alguém pode tocar de leve, como em um ‘bufê a quilo’, para o contentamento do ego.

Na era da informação, encontra-se frequentemente a grandiloquente declaração: ‘Sei o que é melhor para mim! Escolherei o que se adapta às minhas reivindicações únicas’. Isso equivale a uma pessoa doente dizer para um médico qualificado: ‘Conheço o meu corpo. Escolherei eu mesmo os medicamentos, sem considerar a sua experiência médica’. Ou mais simplesmente, é como uma criança que vai a um restaurante e afirma: ‘Vou comer o que for mais gostoso’. Os budistas possuem uma resposta eficaz para esse tipo de arrogância. eles dizem que oferecem a iluminação, e quando uma pessoa faz perguntas sobre ela é precisamente porque ela não é iluminada e primeiro precisa reconhecer a sua própria falta de iluminação. Uma pessoa não-iluminada, dizem os budistas, está iludida e por isso escolherá com base nas suas próprias ilusões. Por isso é necessário uma tradição válida, com professores esclarecidos e práticas autênticas para primeiro diminuir e depois remover a ilusão.

Gnose não significa informação, embora o gnosticismo, veículo da gnose, possa conter alguma informação. Contudo, mesmo aqui, é preciso ter cuidado. A informação gnóstica é bem diferente da maioria das outras informações. Ela contém mito, insight visionário, estímulos psicoespirituais, processos mágicos e muito mais. Tratar esse material como um compêndio de dados, puro e simples, seria desastroso. A tradição gnóstica existe em parte para tornar esse tipo de informação assimilável para a mente não treinada em imagens, realizações e linguagem gnósticas. Estabelecer alguém acima de uma tradição que tem as suas próprias estratégias, seu próprio modo de enxergar a realidade e as suas próprias práticas espirituais é fútil e tolo.

A nossa era está pesadamente saturada de informação e continua voraz, esperando mais. Parece que quanto maior a frequência com que acumulamos informações, menos reais as nossas vidas se tornam. As pessoas ficam muito desconcertadas com a tecnologia da qual dependem, e muitas vezes frustradas pela informação que recebem através desta mesma tecnologia. Viciados da era da informação, frequentemente esquecemos que existe um outro tipo de conhecimento possível, no qual falar menos muitas vezes significa saber mais, e o êxtase da visão substitui a ganância dos fatos. A gnose raramente ofereceu fatos ou até teorias; o que ela sempre ofereceu foi experiência. Em um mundo no qual a informação se torna obsoleta em horas, pode ser que este tipo de insight informador seja o que mais urgentemente necessitamos”.

(Stephan A. Hoeller)

A melhor e mais segura Via para Deus

“Deus é o inimigo dos entendimentos pessoais e arrogantes: Ele volta-lhes as costas, porque eles se consideram sábios e eruditos, e porque eles querem ler no livro dos Seus Segredos com os óculos da razão. Aquele que pede a Deus o Seu Espírito Santo, sem cessar, encontrará a melhor e a mais segura via, e receberá um guia que o conduzirá em todos os abismos, lhe abrirá todas as fechadura e todas as portas; é assim que nos prestam testemunho, e que nos ensinam pelo seu exemplo, todas as pessoas iluminadas; fora disso, não se encontra nada. De acordo com isso, o pesquisador esfomeado não limitará o seu Estudo à leitura e à ciência escrita; ele pensará também em começar o seu caminho e ao lado da oração assídua, ele odiará a vida terrestre, procurará a interior, assim como eu fiz: ele reconhecerá assim que as lições e os ensinamentos vêm de Deus”. (J. G. Gichtel)

O Sincretismo da Filosofia Rosacruciana

“O julgamento mais frequente a respeito da filosofia rosacruciana enuncia o caráter de sincretismo do tratado (nota do editor: o autor aqui refere-se ao Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz): ‘Trata-se de uma síntese compósita’, escreve Serge Hutin nas Sociedades Secretas, ‘que reuniu os vestígios de todas as tradições mais ou menos secretas que haviam caminhado subterraneamente durante toda a Idade Média e o Renascimento’. Nesta Webster fala de um ‘composto de antigas doutrinas esotéricas, da magia árabe e síria, de cabalismo judeu, em parte herdado dos Templários’ (?)”.

(Bernard Gorceix)

O Martinismo e os “chocalhos”

“O Martinismo é, acima de tudo, uma alavanca de desenvolvimento individual e um esforço no sentido da penetração da ciência viva. Como tal, procura dar ao homem de desejo a sensação de sua humildade e da mesma vitalidade que ele pode retirar deste entendimento.

Nós não somos um novo rito maçônico, não damos aos homens da torrente o gosto por fitas multicoloridas e títulos poderosos; o homem que pensa e que aspira compreender as forças ativas não possui a necessidade desses chocalhos.”

(Papus)

Symbolon

“A palavra símbolo vem da palavra grega symbolon, que combina duas raízes – sym, que significa junto ou com; e bolon, que significa aquilo que foi colocado. O significado básico é, por conseguinte, ‘aquilo que foi colocado junto’. No uso grego original, os símbolos referiam-se às duas metades de um objeto, tal como uma vara ou uma moeda, que duas partes dividem entre si como um sinal de compromisso e que mais tarde serve de prova de identidade daquele que apresentar uma das partes diante daquele que está de posse da outra. O termo correspondia à palavra inglesa tally [entalhe], que o dicionário Webster descreve do seguinte modo: ‘Após marcar numa vara, com entalhes, a quantidade ou o número de bens enviados, os comerciantes costumavam dividir essa vara em sentido longitudinal, passando por todos os entalhes, de modo que as metades resultantes correspondessem entre si exatamente, ficando o vendedor com uma das partes e o comprador com a outra’. Portanto, um símbolo era, originalmente, uma tally, referindo-se à parte de um objeto que lhe faltava, parte essa que, quando restituída à outra parte, ou colocada junto dela, recriava o objeto inteiro original. Isso corresponde à nossa compreensão da função psicológica do símbolo. O símbolo nos leva à parte que falta do homem inteiro. Ele nos põe em relação com nossa totalidade original e cura nossa divisão, nossa alienação da vida. E como o homem total é bem maior que o ego, o símbolo nos põe em relação com as forças suprapessoais que constituem a fonte de nossa existência e do significado que temos. Essa é a razão para que se honre a subjetividade e para que se cultive a vida simbólica.” (Edward Edinger)

Como alcançar a Vida Suprasensível

O Discípulo pergunta ao Mestre: “Como posso alcançar a vida suprasensível, a fim de poder ver e ouvir a Deus?”
Seu Mestre responde: “Quando puderes lançar-te, por um instante, naquele lugar onde nenhuma criatura habita, então ouvirás o que Deus fala”.
Discípulo: “Isto está perto ou longe”?
Mestre: “Está em ti, e se puderes, por um momento, cessar todo o teu pensamento e a tua vontade, ouvirás as inexprimíveis palavras de Deus”.
Discípulo: “Como posso ouvi-Lo apenas detendo meus pensamentos e minha vontade?”
Mestre: “Quando detiveres o pensamento e a vontade do eu, então o eterno ouvir, ver e falar, serão revelados a ti. Teu próprio ouvir, tua própria vontade e visão, te ocultarão, a fim de que tu não vejas e não ouça a Deus”.
Discípulo: “Mas como poderei ouvir e ver a Deus, estando Ele acima da natureza e da criatura?”
Mestre: “Quando estiveres quieto e silencioso, serás como era Deus antes da natureza e da criatura, então ouvirás e verás do modo como Deus viu e ouviu em ti, antes de tua própria vontade, visão e audição ter início”
(Jacob Boehme)