O corpo que herdará o Reino de Deus

“O corpo espesso externo dos quatro Elementos não vai herdar o Reino de Deus, mas herdará, sim, aquele que nasceu do Elemento, ou seja, da manifestação e da Atuação Divina. Certamente este herdeiro não é o corpo de carne e da vontade do homem, mas aquele formado pelo ‘Archæus’ celeste neste Corpo espesso que é sua casa, ferramenta e instrumento. Quando a crosta for retirada, aparecerá a razão de sermos chamados, aqui, de homens, ainda que alguns de nós não passemos de bestas. E mais ainda: alguns são piores do que bestas”. (Jacob Boehme)

O que há dentro do Não-Fundamento?

“Dentro do não-fundamento (que alguns escritores denominam de ‘Não-Ser’ – um termo sem nenhum significado) não há nada senão tranqüilidade eterna, um eterno repouso sem começo e sem fim. É verdade que mesmo ali Deus tem uma Vontade, mas essa Vontade não pode ser objeto de nossa investigação, já que qualquer tentativa de investigá-La produziria pura confusão em nossa mente. Concebemos essa Vontade como constituindo o fundamento da Divindade. Ela não tem origem, mas se concebe a si mesma em si mesma.”. (Boehme)

Fogo, Água e Fôlego

“Três Mães: Alef, Mem, Shin
Na Alma, macho e fêmea,
São a cabeça, o ventre e o peito.
A cabeça é criada do Fogo.
O ventre é criado da Água,
e o peito, do Fôlego,
decide entre eles.”
 (Sêfer Ietzirá 3:6)

“O corpo humano é um microcosmo do Homem Supremo, Adam Kadmon. O Homem Supremo representa a disposição das Sefirot. A “Alma” mencionada nesse parágrafo também se refere à representação antropomórfica dessa disposição.

Na Árvore da Vida, Shin, é representada pela linha entre Chochmá e Biná, Alef, entre Chessed e Guevurá, Mem, entre Nêtsah e Hod. A linha superior representa a Cabeça, a linha central representa o Peito e a linha inferior representa o Ventre.

A Cabeça também representa o poder criativo do homem, correspondente ao Fogo. O Ventre é o poder receptivo do homem, representado pela água. O Peito e os pulmões devem tanto inalar quanto exalar, pertencendo, portanto, a ambos.

A cabeça (Shin) é considerada como o centro da consciência Biná, o assento do fluxo consciente de pensamentos. O funcionamento do ventre (Mem) é por outro lado, quase que completamente inconsciente, o que denota a consciência de Chochmá.

A respiração faz fronteira entre o consciente e o inconsciente. Geralmente respira-se inconscientemente, mas o fôlego também pode ser controlado conscientemente. A respiração (Alef) está, portanto, associada com ambas as consciências: Chochmá e Biná. Por isso as técnicas de controle da respiração são importantes para obter-se a transição entre os dois estados. Seu centro é no Peito”.

(Aryeh Kaplan)

Os que desejam o Céu e os que suportam a jornada

“Como são poucos, entretanto, os que conseguem, ou sequer compreendem a força do desejo que se faz necessária para produzir a iniciação! A bela tradição oriental fala do Mestre que manteve seu discípulo sob a água até que ele ficasse quase sem fôlego, e disse-lhe que, quando ele desejasse a luz tão fervorosamente quanto havia desejado o ar, o receberia. E a história ocidental fala do homem que vendeu tudo quanto tinha, a fim de comprar uma pérola de grande preço. Aquele que põe o pé no Caminho, pode nada levar consigo; nus viemos para o mundo, e nus o deixaremos, passando para uma consciência superior. Os “que desejam o céu” são muitos, mas os que suportam a jornada divina são poucos. É impossível tirar o maior proveito de ambos os mundos, porque onde nosso tesouro estiver, aí estará também o nosso coração.” (Dion Fortune)

Por que a Astrologia não é uma pseudo-ciência

Texto publicado originalmente em 12 de maio de 2019 no site Constelar por Clarissa de Franco.

Nota crítica ao artigo: “Por que a astrologia voltou a ser pop”, publicado em 18/04/2019 na Revista Época, originalmente publicado no inglês: “Astrology year zero”, por Lauren Oyler, na mídia: The Baffler

Frequentemente, profissionais com especialização nas mais diversas áreas – desde Jornalismo até Física – colocam-se em veementes falas públicas sobre o malefício monstruoso que a Astrologia pode provocar. Em uma espécie de apelo coletivo à racionalidade iluminada e salvadora de humanoides, apontam desesperadamente o risco da Astrologia para as mentes – até as mais brilhantes –, ao corromper as racionalidades com sua lógica ilógica. O argumento que se destaca entre esses apelos é o caráter pseudocientífico atribuído à Astrologia, o que, em linhas breves, refere-se a uma retórica com aparência de factualidade, materialidade e objetividade, apoiada, inclusive, em dados matemáticos, que esconderia uma hipótese de base falaciosa, mítica e irracional.

Como exemplo histórico, temos o famoso manifesto Objections to Astrology inicialmente assinado por 186 cientistas em 1975 e depois transformado em livro chegando ao número de 192 cientistas em protesto contra a Astrologia e seus perigos. Basicamente, o texto apontava para a preocupação dos/as cientistas com o aumento da popularidade da Astrologia, que seria baseada em princípios de pensamento mágico e não científico. Cabe destacar que Carl Sagan na época negou-se a fazer parte do documento, acusando o manifesto de autoritário. O manifesto também recebeu críticas de Paul Feyerabend.

Objections to Astrology é emblemático, mas a história está repleta de outros exemplos. Richard Dawkins, zoólogo renomado, fez críticas à Astrologia em seu livro: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento, no qual chama a Astrologia de um insulto a áreas como Astronomia e Psicologia. Cita – equivocadamente – a maneira “danosa com que os astrólogos dividem os humanos em 12 categorias”, mostrando seu desconhecimento sobre a matéria a qual critica, já que quem divide os seres humanos em 12 categorias são os produtos que simplificam e banalizam os estudos astrológicos.

Reforçando a lista de críticas, em 18 de abril de 2019, a Revista Época publicou uma matéria, com o título: “Por que a astrologia voltou a ser pop?”, traduzido por Mariana Nântua do artigo original Astrology year zero, de Lauren Oyler, publicado em fins de 2018 na mídia: The Baffler. Em linhas gerais, o artigo reforça que a popularidade da Astrologia estaria ligada a uma base de conhecimento tácito, intuitivo e volátil, que embora “obviamente falso”, não teria tanta predisposição a nos enganar quanto as religiões e outras ideologias. Lauren Oyler também sugere que a Astrologia faz sentido na medida em que estamos mergulhadxs em tanto estresse, problemas e falta de perspectiva que as explicações astrológicas podem promover uma sensação aparente de resgate do controle.

A autora cita Theodor Adorno – um dos pais da Escola de Frankfurt – em seu texto em que critica a Astrologia, considerando que a mesma anula a diferença entre fato e ficção, aproximando-se dos pensamentos autoritários e totalitários. Uma das falas de Adorno evoca o conceito de racionalidade instrumental, aquela que utilizamos para justificar atrocidades e atos desumanos, sugerindo que quem crê na Astrologia: “tem vontade vaga de entender e também é levada pelo desejo narcísico de se mostrar superior às pessoas simples, mas não está em uma posição tal que lhe permita empreender operações intelectuais complicadas e distanciadas”. O artigo de Laren Oyler conclui reforçando o velho argumento de chamar a Astrologia de quase delírio, ou um delírio com aparência de “razoabilidade fictícia que permite aos impulsos delirantes abrirem caminho para a vida real sem se chocar abertamente com os controles do ego”.

Só a luz da razão salva?

Para responder a esses argumentos que no fundo quase alegam que “só a luz da razão salva” (já que Jesus anda tendo muito trabalho), evoco a capacidade humana de ir além dos binarismos e dicotomias. Evoco as tradições filosóficas, psicológicas, antropológicas e sociológicas, de Dilthey aos estudos descoloniais, que questionam a centralidade do poder epistemológico atrelado a um grupo ou a um corpo de conhecimento específico, que desconstroem as hierarquias artificialmente estabelecidas entre subjetividade e racionalidade, que não opõem mito à realidade, que consideram que as linguagens: simbólica, analógica, alegórica, mitológica, mística, intuitiva, constituem lógicas que não são conflitivas, opostas ou concorrentes à lógica da objetividade, uma vez que a riqueza humana é capaz de atuar e desenvolver diversos e complexos tipos de cadeias de raciocínio concomitante e complementarmente.

Adorno tem razão parcial quando afirma que a Astrologia anula a diferença entre fato e ficção. Razão parcial porque essa não é uma prerrogativa única da Astrologia. Qualquer sistema simbólico ou narrativa mítica parte da perspectiva de que não é preciso contrapor fato e ficção, como se fossem espectros opostos e inencontráveis. A ciência, por vezes, também se constitui como uma narrativa distante de realidades possíveis vivenciadas na vida prática. Chamaríamos de ficcionais tais narrativas científicas?

A sobrevivência milenar da Astrologia é de fato curiosa, mas ainda mais curiosa é a tentativa de colocá-la como pseudocientífica, como se ela fosse devedora de um corpo de conhecimento – a ciência – que na verdade bebeu de sua fonte (da Astrologia e de outros saberes antigos) e surgiu séculos e séculos depois. Uma inversão que cheira a um comportamento intelectual desonesto, que a todo custo quer manter o paradigma iluminista de pé, mesmo que tantas correntes, como a própria Teoria Crítica da qual Adorno é representante, já tenham desmascarado as boas intenções do iluminismo.

A lógica da Astrologia não é científica – nem precisa ser

A Astrologia, como um saber tradicional, parte de uma lógica própria. Tal lógica não é científica, certamente que não. E isso não é um demérito, já que a ciência (ou as ciências, porque nem dentro da academia se tem pensamento homogêneo e singular, ainda bem!) é uma forma de acesso ao conhecimento, não sendo a única. Ciência não é carimbo de veracidade, verdade ou objetividade, não é critério para averiguar nenhum outro saber que não opere a partir de sua lógica. Quem faz investigação com fins policialescos, de atribuição de valor, de legitimação ou deslegitimação de determinado saber ou lógica, opera de forma colonialista, com objetivo de fazer imperar seu método sobre os demais.

Com que autoridade a voz científica confere ou retira legitimidade das demais formas de conhecimento? Existe aí um claro perigo de universalização de conceitos sobre o funcionamento do mundo. As leis universais científicas que revelariam a verdade e essência das coisas são, todavia, construídas artificialmente, como um recurso de acesso ao conhecimento, o qual a própria ciência honesta reconhece como passível de revisões constantes. Isto não invalida achados científicos, pesquisas, teorias, mas tampouco torna seu critério um retrato objetivo e fiel da realidade, e muito menos, a única forma legítima de acesso ao conhecimento.

A meta cartesiana de valorização da razão e da ciência empírica tem como efeito um padrão cognitivo de observação, compreensão e atuação no mundo calcado em hierarquização de saberes e lógicas, em desvalorização de conhecimentos e formas de acesso ao conhecimento que não são científicas. A ciência tem muitos méritos e belos resultados e qualquer cientista com engajamento ético em sua profissão reconhece que o objetivo científico central não é valorar fenômenos como verdadeiros ou falsos, bons ou maus, mas sim apresentá-los em profundidade.

Se Astrologia é pseudociência, os calendários também são construídos com bases pseudocientíficas. Afinal, qualquer pessoa sabe que contar o tempo e encaixá-lo em 365 dias, e, a cada quatro anos compensar as horas que não cabem no calendário anual, é uma escolha arbitrária que opera dentro de uma concepção de ser humano e de tempo. Existem outros calendários e outras concepções. Ao tentar ajustar a realidade sideral à realidade e necessidade antropológica de passagem de tempo, utiliza-se de sistemas que precisam ser práticos, didáticos e humanamente úteis à contagem do tempo em nossa época. O tempo, de fato, não muda a quatro anos, nós é que o contamos assim na civilização ocidental contemporânea, construindo uma narrativa sobre o tempo. Ora, o calendário atual (assim como todos os outros) se presta a uma tentativa de organização temporal adaptada às necessidades humanas. E nem por isso é falso, “pseudo qualquer coisa” ou parcialmente mentiroso.

A Astrologia, assim como os calendários, também é um modelo adaptado a uma necessidade humana de compreensão do funcionamento do cosmos. Como narrativa, pode servir a algumas pessoas e a outras, não. O modelo astrológico não é um retrato fidedigno do que ocorre com as moradas celestes. É apenas um sistema explicativo, com brechas, lacunas e problemas metodológicos, cabíveis a todos os modelos de função similar. Um sistema explicativo, diga-se de passagem, de linguagem simbólica, mitológica e não literal, apoiado, sim, em dados matemáticos e em observações factíveis, mas nem por isso, que pode ser chamado de um sistema empírico ou científico.

A astrologia possui linguagem mítica e isso não é um problema para quem não divide o mundo em branco e preto, norte e sul, homem e mulher, fato e ficção. A Astrologia não precisa de reconhecimento científico, porque sua eficácia, seu fundamento, seu funcionamento, sua legitimidade operam em outra lógica.

Astrólogos – conspiradores para ludibriar mentes ingênuas

Acreditar que astrólogxs, desde tempos imemoráveis, atuam no sentido conspiratório de ludibriar pobres mentes ingênuas é desvalorizar a capacidade de escolha, de cognição e consciência de cada ser humano que escolhe a Astrologia como uma forma de acesso ao conhecimento e como um sistema narrativo de sentido. É, ainda, operar na frágil lógica de opor mito à realidade, o que não corresponde às correlações e riquezas simbólicas que estabelecemos em nossa cognição. Que golpe duro para os/as hard scientists, ver que a despeito de todas as maravilhas que a ciência pode oferecer, transformando café e chocolate em herois e vilões a cada estação, há milhares de pessoas que usam sua racionalidade para eleger outras formas de explicação!

Quanto à fala de Adorno sobre a Astrologia como um desejo narcísico de se mostrar superior às demais pessoas, sem fazer um esforço intelectual profundo, isso também ocorre com outros saberes. Pode ocorrer, inclusive, com saberes científicos, referindo-se muito mais à forma como um determinado saber é articulado do que ao saber em si.

E para que a comunicação nesse texto seja a mais transparente possível, afirmo que quem atua ou se consulta com Astrologia, deve reconhecer alguns pontos, como o fato de que o modelo de horóscopo presente em revistas, jornais, sites, em geral, é um serviço pouco profundo, que envolve generalizações, pouco espaço para expressar o significado de um fundamento ou aspecto astrológico e via de regra recebe orientações e regulamentações da equipe editorial que publica o horóscopo. Portanto, quem puder escolher, melhor investir em outro serviço astrológico como Mapa Astral, Previsões (Trânsitos, Revolução Solar, Progressões…), Astrologia empresarial, Astrologia Mundial, Astrologia Eletiva…, evitando assim a equivocada impressão a que se referiu Dawkins de que Astrologia se resume a dividir o ser humano em 12 categorias.

Outro ponto a ser considerado é que existe sempre o “problema” da autoindução diante da Astrologia Moderna, que foi psicologizada, ou seja, uma Astrologia voltada ao autoconhecimento. Tal questão refere-se à pessoa ser induzida a pensar algo sobre si mesma a partir de considerações genéricas que serviam a qualquer ser humano. Claro que a autoindução ou indução a partir de referências externas é também um problema que não é restrito à Astrologia e pode ocorrer em consultórios psicológicos, por exemplo. Lidamos, aqui, com limites de nossa própria consciência acerca de nossos processos.

Finalmente, o aspecto de previsão da Astrologia também pode ser colocado em perspectiva distinta do que normalmente é conhecido como “oráculo guru”. Basta lembrarmos que a ciência estabelece previsões o tempo inteiro: para o clima, para a direção de objetos, para a economia, e também para o comportamento humano. Fazer previsões é um ato teleológico, que move a espécie humana a se antecipar aos seus medos e desafios. Nenhuma previsão, seja do clima, do Banco Mundial, da Mega-Sena ou da Astrologia, é capaz de ser absoluta e definitiva, estando todas em permanente construção, diálogo e interposição com os atos humanos. Se queremos honestidade intelectual, devemos começar com a observação de nossas referências e não com aquelas que nos são alheias.

 

Astronomia, por Giovanni Cassini

Trabalho de Giovanni Cassino, publicado com o titulo de Astronomia na Enciclopédia Britânica em 1771, mostrando o ciclo de Vênus, Sol e Mercúrio na perspectiva da observação na Terra. Esse é o caminho que Vênus, a Estrela da Manhã faz a cada 8 anos, um perfeito pentagrama.

Da Reintegração das Formas

Meus irmãos,

Tudo o que começou adquiriu princípio, e tudo o que foi criado deve terminar. É um axioma inabalável, geralmente aceito, tanto pelos homens espirituais Divinos, temporais, como pelos homens materiais temporais. Mas, como a averiguação é bem diferente, vou vos falar da reintegração das formas, com o auxílio do Eterno.
Já vimos como o número ternário, 3, é o do corpo, por suas três essências espirituais; o senário, 6, é o de sua divisão, representando aquele dos seis pensamentos que o Criador empregou para a criação universal geral e particular. O número novenário, 9, é o da reintegração. No princípio da produção de um corpo, tal como aquele da formação de uma criança no corpo de sua mãe, esse seminal reprodutivo nos representa no seu primeiro princípio a matéria em sua indiferença, as três essências não tendo ainda nenhuma distinção, e estando em aspecto umas com as outras, sem forma; mas, tão logo elas estejam na matriz, recebem um movimento que parte do grau de fogo que ali se encontra, e que é produzido pela ação dos espíritos do eixo fogo central e dos espíritos elementares que, acionando sobre o veículo da mulher, começam a trabalhar, modificar e distinguir as essências. No momento em que são distinguidas, o embrião toma forma; o que ocorre no fim de 40 dias, por um número de experiências reiteradas, para repetir sempre a toda a posteridade de Adão o pecado de seu primeiro Pai, cometido na quarta hora do dia, para lhe repetir sua penitência de 40 dias, sua reconciliação ao fim de quarenta anos, o que foi repetido por Noé, Abraão, Moisés e definitivamente por nosso Divino Mestre Jesus-Cristo quando jejuou 40 dias sobre a montanha do Tabor. No quadragésimo dia, o espírito menor desce no corpo, ou envoltório, ou na prisão, que acaba de lhe ser feita, e começa, desde este instante, a experimentar um sofrimento, porque a maior pena que um espírito possa sentir é a de estar limitado em sua ação. Consideremos um momento a posição desse ser. Ele tem os dois punhos apoiados sobre os olhos; envolvido no âmnio (a mais interna das membranas que envolvem o feto), nada em um fluído de corrupção, privado do uso de todos os seus sentidos espirituais, Divinos e corporais; ele recebe o alimento pelos abismos de sua forma, submetido a uma tão grande privação que ele não se agarra à vida senão por aquela de um ser quase tão fraco quanto ele; que ele participa de todas as suas penas, seus sofrimentos e seus males. Oh! Crime de nosso primeiro Pai! Eis o justo castigo que tu mereces. A justiça do Eterno submeteu toda a posteridade de Adão a passar pelas mesmas vias.
Consideremos aqui, meus irmãos, que o ser espiritual Divino que está no corpo da mulher está encerrado sob três véus espessos: o primeiro, sua própria forma; o segundo, aquele de sua mãe; e o terceiro, aquele do universo. No momento que sai do corpo de sua mãe, ele não está preso senão a dois véus: aquele de sua forma e o do universo; e, no instante que faz a sua feliz reintegração, não lhe resta mais senão aquele do círculo universal. Eis um belo ternário: o menor, no corpo de sua mãe, 1; o menor neste universo, 2; e o menor reintegrado, 3; o que prova ainda a feitura deste universo, ou os seis pensamentos, pela adição destes três números que dão 6. Em seu primeiro princípio, Adão, revestido de sua forma gloriosa, dominava acima de todo este universo, sem estar subjugado. Por seu crime, mergulhou toda a sua posteridade abaixo da escada que ela ficou obrigada a ascender.

O número novenário, 9, é o da reintegração e da destruição, porque subdivide as três essências que, em seu princípio, não continham senão um número ternário por sua união: mercúrio, enxofre e sal, 3. Mas como na parte mercurial existe um misto, visto que tudo o que tem forma é misto, na parte mercurial se encontram enxofre e sal, 3; na parte sulfurosa se encontram sal e mercúrio, 3; e na parte do sal se encontram enxofre e mercúrio, 3/9. O que os faz denominar mercúrio, enxofre e sal, é que essas três partes dominam em cada um desses mistos; mas, no instante em que o homem alcança, degrau por degrau, a sua formação perfeita, ele organiza e aperfeiçoa o que se pode denominar vegetação; ele começa a sua reintegração, insensível, antes de tudo como tinha sido sua formação, até o momento em que, enfim, começa a sua reintegração inteira pela dissolução ou a divisão das essências.

No primeiro princípio, o germe contendo as três essências dá início à produção da forma. No momento em que o homem nasce, os alimentos das três essências, 3, lhe dão a vida, e todo o tempo de sua duração aqui em baixo. Mas, assim que as três essências cessam a sua produção e a vegetação, elas começam a sua reintegração, 3, subdividindo-se, isto significa que sua união no primeiro princípio determinou sua produção, sua divisão pela parte alimentar originou a sua vegetação, sua subdivisão produziu sua reintegração, porque nenhum corpo dos três reinos, vegetal, mineral e animal, pode subsistir sem estar, todo o tempo que tem forma, em um desses três estados de produção, vegetação e reintegração.

Entrarei agora na demonstração da reintegração. No momento em que o veículo eixo fogo central, que formava a vida da forma, residindo no sangue e tendo a sua fonte no coração (da qual se dará a demonstração anatômica na seqüência), fez a sua reintegração, desde então, a forma começa a sua reintegração pelo que segue:

A forma do homem contém o germe de uma turba de animais répteis ou de insetos que começam o seu crescimento pelo trabalho de reintegração, que se faz pelo úmido grosseiro do cadáver que, por seu movimento, trava combate nos ovários dos animais rastejantes que existem no cadáver. Os espíritos elementares, agentes das formas conjuntamente com o fogo terrestre, ou do corpo geral, batendo seus fogos espirituais, entrechocam os ovários desses répteis, e, por sua reação, descobrem o envoltório ovário que os mantinha contidos. Esses insetos possuindo existência em cada uma das três essências, mercúrio, 1, enxofre, 1, e sal, 1/3, e contendo em si mesmos essas três essências – aqueles que viveram na parte do mercúrio, 3, aqueles que viveram na parte do sangue, 3, aqueles que viveram na parte do sal, 3. A reintegração desses insetos dá a cessação de toda a espécie de aparência da forma do cadáver, o que forma a reintegração perfeita da forma humana. É pouca a diferença de tempo do crescimento, da produção e da reintegração desses insetos que chegam aproximadamente à duração da reintegração da forma humana, o que prova que o número 9, ou novenário, é o da reintegração.

Observemos aqui, meus irmãos, a analogia que o corpo do homem, denominado “pequeno mundo” tem, com razão, com o universo. Como o universo, ele contém 3 partes: o universal, o geral e o particular; a imagem do universal pelo número inumerável de fibras que formam sua parte cartilaginosa e que não é possível calcular, senão enumerando os espíritos do eixo fogo central; o geral, ou a terra, como ela, ele é triangular. Como ela, ele dá a vida a três gêneros de seres de forma, como acabado de demonstrar, o que nos representa os três reinos, vegetal, mineral e animal; como ele, enfim, contém o particular pelo número inumerável de pequenos vasos capilares sangüíneos, não mais sendo possível de enumerar esses pequenos vasos senão enumerando as estrelas que compõe o firmamento.

O corpo do homem contém ainda uma correspondência puramente espiritual com o ser menor que ele contém em privação. É que ele (corpo do homem) representa aos olhos da forma todo o físico espiritual que se opera sobre a alma espiritual Divina eterna. Observando-se bem a um, ver-se-á que é o protótipo do outro: a alma, como o corpo, tem a necessidade de alimento de sua natureza Divina; esse alimento, tomado com moderação, a mantém à vida, como o corpo; o alimento envenenado lhe dá, como ao corpo a morte da privação; ela tem suas doenças como ele, mas não é jamais afetada por aquelas do corpo, que, assim como ela, participou, pelo mau uso de seu livre arbítrio da doença do corpo; por meio do qual podemos nos convencer pelos suplícios que tem sofrido os felizes eleitos do Eterno, cuja alma suplícios que tem sofrido os felizes eleitos do Eterno, cuja alma desfrutava da contemplação do Espírito Santo e, em virtude disso, estava nas delícias, no tempo em que se oprimia a forma por todos os suplícios que a malícia demoníaca pode inventar. A alma desses menores, muito longe de participar das dores do corpo não tinha deles nenhum conhecimento.

Aqueles que, tendo cometido qualquer crime, sentindo o justo castigo, não sentem os seus efeitos, ainda que por desígnios bem diferentes em sua alma o suplício do corpo; ao contrário, o suplício que sua alma experimenta é incomparavelmente superior àquele de seu corpo. Nesse estado de justiça, a alma não experimenta senão satisfação, ainda que o corpo sofra e, no estado do justo castigo que segue o crime, a alma sente incomparavelmente dores mais vivas que o corpo; o que faz ver a necessidade do castigo da alma, da pena do corpo e daquela do espírito, para readquirir os conhecimentos que tivemos a infelicidade de perder pelo pecado de nosso primeiro Pai, uma vez que os conhecimentos não são senão a recompensa de nossa resignação de suportar os diferentes sofrimentos aos quais a posteridade de Adão foi muito justamente condenada.

É pela mais santa virtude da paciência que se alcança a feliz reintegração de seu ser espiritual Divino no lugar do repouso, e de sua forma em seu princípio eixo fogo central. Que Deus conceda a todos nós essa graça.

Amém!

Louis Claude de Saint-Martin

A Teosofia e a Teurgia, por Serge Caillet

Teosofia

1. O Martinismo é uma teosofia. Esta teosofia é bem diferente de certos sistemas, tal como o que forjara a Srª. Blavatsky, fundadora, em 1875, da Sociedade Teosófica, que não devemos confundir com a Teosofia, e à que conviria reservar o termo “teosofismo”.

2. A teosofia é o conhecimento da verdade, do caminho e da vida. Tudo é uno. A teosofia é o conhecimento, que é a sabedoria de Deus. E este conhecimento é experimental.

3. O Martinista é um teósofo. E o que é um teósofo nos explicará um autor anônimo:
“Se entende por teósofo um amigo de Deus e da sabedoria.
O verdadeiro teósofo não recusará nenhuma das inspirações que Deus lhe envia para desvelar-lhe as maravilhas de sua obra e de seu amor, a fim de que o inspire este amor a seus semelhantes mediante seu exemplo e seus conselhos. Eu digo, ao verdadeiro teósofo: todos os que se ocupam somente da teosofia especulativa, não são por ela teósofos, porém podem esperar chegar a sê-lo se tem um verdadeiro desejo, se persistem na resolução que tomaram de imitar as virtudes do Reparador, e põe nele toda sua confiança. Um verdadeiro teósofo é por tanto um verdadeiro cristão, assim que se possa convencer por sua doutrina que é a mesma. Esta doutrina está fundada sobre as eternas relações que existem entre Deus, o homem e o Universo; e estas bases se encontram afirmadas nos livros teogônicos de todos os povos, e sobre tudo pelas Sagradas Escrituras interpretadas seguindo ao espírito e não a letra.
Os teósofos, fundamentados em seus princípios, não são volúveis jamais, não discutem nunca; eles tentam convencer pela razoabilidade e pelos fatos; se não podem chegar a isto, guardam o mais profundo silêncio e lamentam os erros que confundem ao espírito de seus semelhantes; rogam a Deus que os ilumine e os prepare para receber a verdade: pois a verdade mostra-se por si mesma sua evidência, somente é necessário que os espíritos estejam preparados para recebê-la.
Assim vemos como os teósofos não fazem jamais sectarismo; não buscam nunca fazer proselitismo, e não se conduzem nunca como sectários; somente se expressam de forma aberta em seus escritos, e quando a ocasião se apresenta na causa da verdade. E, em efeito, podemos chamar sectários aos sábios que, em todos os tempos, tem provado a evidência por seus discursos e por suas ações, as quais admiram verdadeiramente os amigos de Deus?
A unidade e a firmeza de seus princípios devem também distingui-los dos filósofos, cuja diversidade de opiniões inspira naturalmente a desconfiança de seus diferentes sistemas e o mesmo se pode dizer sobre a palavra filosófica, da que tanto se abusou até agora. Pois se a filosofia, tomada em geral, reafirma em seu seio todas as verdades conhecidas, também encobre os erros mais perigosos. Peçamos pelos que se entregam inconsideravelmente ao ensino da verdade sem receber a chama que somente a sabedoria eterna pode dar quando a pedimos com sinceridade, seja para iluminarmos a cada um em nossas trevas, ou seja, para iluminar continuamente nossos semelhantes, se esta sabedoria os julgar dignos dela.
O teósofo é aquele, ou aquela, que tende a contemplar-se no espelho, a fim de refletir sobre a verdade, a vida e a sabedoria. Esta transformação se consegue por purificações sucessivas do corpo e da alma, dos corpos e das almas; se consegue na iniciação interna da qual a iniciação externa é apenas o símbolo, ou mais raramente o meio. Segundo isto nos purificamos separando o mal que está em nós e no que não está em Deus. Separando-nos disto, nos aproximamos ao caminho, a verdade, a vida, isto é a Deus, que é nosso princípio.”

4. O motor da iniciação, da purificação, é o desejo.
“O primeiro princípio da ciência que cultivamos é o desejo. Em nenhuma arte temporal, nenhum artesão jamais triunfou sem uma assiduidade, um trabalho e uma continuidade de esforço para chegar a conhecer as diferentes partes da Arte que se propõe abraçar. Seria por tanto inútil pensar que se possa conseguir a sabedoria sem desejo, pois a base fundamental desta sabedoria não é nada mais que um desejo de conhecê-la, que vence todos os obstáculos que se apresentam para fechar-lhe a saída; e não deve parecer surpreendente que este desejo seja necessário, pois é positivamente o pensamento contrário a este desejo o que aleija a todos os que buscam entrar alí”.(1)

Notas:
(1) Instruções aos homens de Desejo: Documentos Martinistas, Paris 1.979, nº 1, pág. 1.

A Teurgia

5. Posto que o Martinismo é uma teosofia, e como o Martinista é um homem ou uma mulher de desejo, o objetivo do Martinismo será o do teósofo: a iniciação. Esta consiste, segundo Saint-Martin, na reintegração em nossa origem, que é Deus.

6. O meio de iniciação é a Teurgia. O Martinista é um teurgo. A teurgia une no trato com os anjos, estes espíritos intermediários entre o homem e Deus, e com Deus mesmo e sua sabedoria.

7. Se oferece ao teurgo duas vias: a via externa e a via interna. O estudo teórico de uma e de outra se impõe antes da eventual prática. Não há via fácil, porém há vias perigosas. Que cada um siga aqui o conselho do Apóstolo: Examinai tudo, conservai o que é bom.

8. Exortação prévia: “(…) o primeiro passo que se deve dar deve ser na senda da humildade, da paciência e da caridade. As virtudes são tão necessárias em nossa Ordem (Ordem dos Elus Cohen) que não se pode fazer nenhum progresso enquanto não se avance nas virtudes(2).

9. Martinez de Pasqually foi um praticante da via externa, e a escola da qual era Grande Soberano neste mundo, isto é, a Ordem dos Cavaleiros Maçônicos Elus Cohen do Universo, ensinava a prática da teurgia cerimonial.

10. Louis-Claude de Saint-Martin, na Ordem dos Elus Cohen, trabalhou durante bastante tempo esta via ao pé da letra. Teve, como seus irmãos, inclinação pelas manifestações. Depois a interiorizou optando pela via interna ou cardíaca de forma também metódica (segundo Papus), porém segundo ele menos perigosa.

11. Interna ou externa, ninguém pode engajar-se à teurgia sem um profundo conhecimento das relações entre Deus, o homem e o Universo. Com as vias teúrgicas corolárias, o Martinismo é depositário da doutrina da reintegração e se apresenta no Ocidente como um ramo do esoterismo judaico-cristão. Esta doutrina deve ser estudada, assimilada, antes de passar ou não passar a uma teosofia prática.
A doutrina Martinista, que é do Iluminismo, foi primeiramente transmitida por Martinez de Pasqually no seio da Ordem dos Elus Cohen. Por tanto, é pelo estudo desta doutrina por onde devemos começar a nos prepararmos.

Notas:
(1) Instruções aos homens de Desejo: Documentos Martinistas, Paris 1.979, nº 1, pág. 2.

O Elemento Santo de onde provém os Elementos

“A temperatura do Fogo e da Luz é o Elemento Santo ou o movimento na Luz da Unidade. Desta região salina (salitre espiritual e não o salitre terrestre) procedem os Quatro Elementos: na compressão do Mercúrio Ígneo são produzidas a Terra e as Pedras; na Quinta-Essência do Mercúrio Ígneo, o Fogo e o Céu; no Movimento ou impulso o Ar; e na leitura ou interpretação do Desejo pelo Fogo é produzida a Água”. (Jacob Boehme)

Sejas cingido pela Espada do Espírito

“Se alguém deseja me seguir, que não seja intoxicado pelos pensamentos e desejos terrestres, mas que seja cingido pela espada do Espírito, pois terá que descer à terrível profundidade, por não dizer ao meio do reino do inferno. É muito duro lutar contra o demônio entre o céu e a Terra, por ele ser um poderoso senhor. Durante tais batalhas, passei por experiências amargas que encheram meu coração de dor. Frequentemente, o Sol desaparecia da minha vista, mas depois surgia novamente; e quanto mais o Sol se punha, mais lindo, claro e magnífico era o seu raiar”.

(Jacob Boehme)