Por que a Astrologia não é uma pseudo-ciência

Texto publicado originalmente em 12 de maio de 2019 no site Constelar por Clarissa de Franco.

Nota crítica ao artigo: “Por que a astrologia voltou a ser pop”, publicado em 18/04/2019 na Revista Época, originalmente publicado no inglês: “Astrology year zero”, por Lauren Oyler, na mídia: The Baffler

Frequentemente, profissionais com especialização nas mais diversas áreas – desde Jornalismo até Física – colocam-se em veementes falas públicas sobre o malefício monstruoso que a Astrologia pode provocar. Em uma espécie de apelo coletivo à racionalidade iluminada e salvadora de humanoides, apontam desesperadamente o risco da Astrologia para as mentes – até as mais brilhantes –, ao corromper as racionalidades com sua lógica ilógica. O argumento que se destaca entre esses apelos é o caráter pseudocientífico atribuído à Astrologia, o que, em linhas breves, refere-se a uma retórica com aparência de factualidade, materialidade e objetividade, apoiada, inclusive, em dados matemáticos, que esconderia uma hipótese de base falaciosa, mítica e irracional.

Como exemplo histórico, temos o famoso manifesto Objections to Astrology inicialmente assinado por 186 cientistas em 1975 e depois transformado em livro chegando ao número de 192 cientistas em protesto contra a Astrologia e seus perigos. Basicamente, o texto apontava para a preocupação dos/as cientistas com o aumento da popularidade da Astrologia, que seria baseada em princípios de pensamento mágico e não científico. Cabe destacar que Carl Sagan na época negou-se a fazer parte do documento, acusando o manifesto de autoritário. O manifesto também recebeu críticas de Paul Feyerabend.

Objections to Astrology é emblemático, mas a história está repleta de outros exemplos. Richard Dawkins, zoólogo renomado, fez críticas à Astrologia em seu livro: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento, no qual chama a Astrologia de um insulto a áreas como Astronomia e Psicologia. Cita – equivocadamente – a maneira “danosa com que os astrólogos dividem os humanos em 12 categorias”, mostrando seu desconhecimento sobre a matéria a qual critica, já que quem divide os seres humanos em 12 categorias são os produtos que simplificam e banalizam os estudos astrológicos.

Reforçando a lista de críticas, em 18 de abril de 2019, a Revista Época publicou uma matéria, com o título: “Por que a astrologia voltou a ser pop?”, traduzido por Mariana Nântua do artigo original Astrology year zero, de Lauren Oyler, publicado em fins de 2018 na mídia: The Baffler. Em linhas gerais, o artigo reforça que a popularidade da Astrologia estaria ligada a uma base de conhecimento tácito, intuitivo e volátil, que embora “obviamente falso”, não teria tanta predisposição a nos enganar quanto as religiões e outras ideologias. Lauren Oyler também sugere que a Astrologia faz sentido na medida em que estamos mergulhadxs em tanto estresse, problemas e falta de perspectiva que as explicações astrológicas podem promover uma sensação aparente de resgate do controle.

A autora cita Theodor Adorno – um dos pais da Escola de Frankfurt – em seu texto em que critica a Astrologia, considerando que a mesma anula a diferença entre fato e ficção, aproximando-se dos pensamentos autoritários e totalitários. Uma das falas de Adorno evoca o conceito de racionalidade instrumental, aquela que utilizamos para justificar atrocidades e atos desumanos, sugerindo que quem crê na Astrologia: “tem vontade vaga de entender e também é levada pelo desejo narcísico de se mostrar superior às pessoas simples, mas não está em uma posição tal que lhe permita empreender operações intelectuais complicadas e distanciadas”. O artigo de Laren Oyler conclui reforçando o velho argumento de chamar a Astrologia de quase delírio, ou um delírio com aparência de “razoabilidade fictícia que permite aos impulsos delirantes abrirem caminho para a vida real sem se chocar abertamente com os controles do ego”.

Só a luz da razão salva?

Para responder a esses argumentos que no fundo quase alegam que “só a luz da razão salva” (já que Jesus anda tendo muito trabalho), evoco a capacidade humana de ir além dos binarismos e dicotomias. Evoco as tradições filosóficas, psicológicas, antropológicas e sociológicas, de Dilthey aos estudos descoloniais, que questionam a centralidade do poder epistemológico atrelado a um grupo ou a um corpo de conhecimento específico, que desconstroem as hierarquias artificialmente estabelecidas entre subjetividade e racionalidade, que não opõem mito à realidade, que consideram que as linguagens: simbólica, analógica, alegórica, mitológica, mística, intuitiva, constituem lógicas que não são conflitivas, opostas ou concorrentes à lógica da objetividade, uma vez que a riqueza humana é capaz de atuar e desenvolver diversos e complexos tipos de cadeias de raciocínio concomitante e complementarmente.

Adorno tem razão parcial quando afirma que a Astrologia anula a diferença entre fato e ficção. Razão parcial porque essa não é uma prerrogativa única da Astrologia. Qualquer sistema simbólico ou narrativa mítica parte da perspectiva de que não é preciso contrapor fato e ficção, como se fossem espectros opostos e inencontráveis. A ciência, por vezes, também se constitui como uma narrativa distante de realidades possíveis vivenciadas na vida prática. Chamaríamos de ficcionais tais narrativas científicas?

A sobrevivência milenar da Astrologia é de fato curiosa, mas ainda mais curiosa é a tentativa de colocá-la como pseudocientífica, como se ela fosse devedora de um corpo de conhecimento – a ciência – que na verdade bebeu de sua fonte (da Astrologia e de outros saberes antigos) e surgiu séculos e séculos depois. Uma inversão que cheira a um comportamento intelectual desonesto, que a todo custo quer manter o paradigma iluminista de pé, mesmo que tantas correntes, como a própria Teoria Crítica da qual Adorno é representante, já tenham desmascarado as boas intenções do iluminismo.

A lógica da Astrologia não é científica – nem precisa ser

A Astrologia, como um saber tradicional, parte de uma lógica própria. Tal lógica não é científica, certamente que não. E isso não é um demérito, já que a ciência (ou as ciências, porque nem dentro da academia se tem pensamento homogêneo e singular, ainda bem!) é uma forma de acesso ao conhecimento, não sendo a única. Ciência não é carimbo de veracidade, verdade ou objetividade, não é critério para averiguar nenhum outro saber que não opere a partir de sua lógica. Quem faz investigação com fins policialescos, de atribuição de valor, de legitimação ou deslegitimação de determinado saber ou lógica, opera de forma colonialista, com objetivo de fazer imperar seu método sobre os demais.

Com que autoridade a voz científica confere ou retira legitimidade das demais formas de conhecimento? Existe aí um claro perigo de universalização de conceitos sobre o funcionamento do mundo. As leis universais científicas que revelariam a verdade e essência das coisas são, todavia, construídas artificialmente, como um recurso de acesso ao conhecimento, o qual a própria ciência honesta reconhece como passível de revisões constantes. Isto não invalida achados científicos, pesquisas, teorias, mas tampouco torna seu critério um retrato objetivo e fiel da realidade, e muito menos, a única forma legítima de acesso ao conhecimento.

A meta cartesiana de valorização da razão e da ciência empírica tem como efeito um padrão cognitivo de observação, compreensão e atuação no mundo calcado em hierarquização de saberes e lógicas, em desvalorização de conhecimentos e formas de acesso ao conhecimento que não são científicas. A ciência tem muitos méritos e belos resultados e qualquer cientista com engajamento ético em sua profissão reconhece que o objetivo científico central não é valorar fenômenos como verdadeiros ou falsos, bons ou maus, mas sim apresentá-los em profundidade.

Se Astrologia é pseudociência, os calendários também são construídos com bases pseudocientíficas. Afinal, qualquer pessoa sabe que contar o tempo e encaixá-lo em 365 dias, e, a cada quatro anos compensar as horas que não cabem no calendário anual, é uma escolha arbitrária que opera dentro de uma concepção de ser humano e de tempo. Existem outros calendários e outras concepções. Ao tentar ajustar a realidade sideral à realidade e necessidade antropológica de passagem de tempo, utiliza-se de sistemas que precisam ser práticos, didáticos e humanamente úteis à contagem do tempo em nossa época. O tempo, de fato, não muda a quatro anos, nós é que o contamos assim na civilização ocidental contemporânea, construindo uma narrativa sobre o tempo. Ora, o calendário atual (assim como todos os outros) se presta a uma tentativa de organização temporal adaptada às necessidades humanas. E nem por isso é falso, “pseudo qualquer coisa” ou parcialmente mentiroso.

A Astrologia, assim como os calendários, também é um modelo adaptado a uma necessidade humana de compreensão do funcionamento do cosmos. Como narrativa, pode servir a algumas pessoas e a outras, não. O modelo astrológico não é um retrato fidedigno do que ocorre com as moradas celestes. É apenas um sistema explicativo, com brechas, lacunas e problemas metodológicos, cabíveis a todos os modelos de função similar. Um sistema explicativo, diga-se de passagem, de linguagem simbólica, mitológica e não literal, apoiado, sim, em dados matemáticos e em observações factíveis, mas nem por isso, que pode ser chamado de um sistema empírico ou científico.

A astrologia possui linguagem mítica e isso não é um problema para quem não divide o mundo em branco e preto, norte e sul, homem e mulher, fato e ficção. A Astrologia não precisa de reconhecimento científico, porque sua eficácia, seu fundamento, seu funcionamento, sua legitimidade operam em outra lógica.

Astrólogos – conspiradores para ludibriar mentes ingênuas

Acreditar que astrólogxs, desde tempos imemoráveis, atuam no sentido conspiratório de ludibriar pobres mentes ingênuas é desvalorizar a capacidade de escolha, de cognição e consciência de cada ser humano que escolhe a Astrologia como uma forma de acesso ao conhecimento e como um sistema narrativo de sentido. É, ainda, operar na frágil lógica de opor mito à realidade, o que não corresponde às correlações e riquezas simbólicas que estabelecemos em nossa cognição. Que golpe duro para os/as hard scientists, ver que a despeito de todas as maravilhas que a ciência pode oferecer, transformando café e chocolate em herois e vilões a cada estação, há milhares de pessoas que usam sua racionalidade para eleger outras formas de explicação!

Quanto à fala de Adorno sobre a Astrologia como um desejo narcísico de se mostrar superior às demais pessoas, sem fazer um esforço intelectual profundo, isso também ocorre com outros saberes. Pode ocorrer, inclusive, com saberes científicos, referindo-se muito mais à forma como um determinado saber é articulado do que ao saber em si.

E para que a comunicação nesse texto seja a mais transparente possível, afirmo que quem atua ou se consulta com Astrologia, deve reconhecer alguns pontos, como o fato de que o modelo de horóscopo presente em revistas, jornais, sites, em geral, é um serviço pouco profundo, que envolve generalizações, pouco espaço para expressar o significado de um fundamento ou aspecto astrológico e via de regra recebe orientações e regulamentações da equipe editorial que publica o horóscopo. Portanto, quem puder escolher, melhor investir em outro serviço astrológico como Mapa Astral, Previsões (Trânsitos, Revolução Solar, Progressões…), Astrologia empresarial, Astrologia Mundial, Astrologia Eletiva…, evitando assim a equivocada impressão a que se referiu Dawkins de que Astrologia se resume a dividir o ser humano em 12 categorias.

Outro ponto a ser considerado é que existe sempre o “problema” da autoindução diante da Astrologia Moderna, que foi psicologizada, ou seja, uma Astrologia voltada ao autoconhecimento. Tal questão refere-se à pessoa ser induzida a pensar algo sobre si mesma a partir de considerações genéricas que serviam a qualquer ser humano. Claro que a autoindução ou indução a partir de referências externas é também um problema que não é restrito à Astrologia e pode ocorrer em consultórios psicológicos, por exemplo. Lidamos, aqui, com limites de nossa própria consciência acerca de nossos processos.

Finalmente, o aspecto de previsão da Astrologia também pode ser colocado em perspectiva distinta do que normalmente é conhecido como “oráculo guru”. Basta lembrarmos que a ciência estabelece previsões o tempo inteiro: para o clima, para a direção de objetos, para a economia, e também para o comportamento humano. Fazer previsões é um ato teleológico, que move a espécie humana a se antecipar aos seus medos e desafios. Nenhuma previsão, seja do clima, do Banco Mundial, da Mega-Sena ou da Astrologia, é capaz de ser absoluta e definitiva, estando todas em permanente construção, diálogo e interposição com os atos humanos. Se queremos honestidade intelectual, devemos começar com a observação de nossas referências e não com aquelas que nos são alheias.